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Quando as maçãs caem para cima

Opinião

Octávio Lousada Oliveira

Diana Tinoco

Se o inominável presidente da Câmara Municipal de Pedrógão Grande foi ator principal após os fogos de 2017, Ana Abrunhosa foi o rosto da passividade. A agora ministra foi a responsável que viu de menos, ouviu de menos, soube de menos e quis apurar ainda menos

Talvez pareça novidade para os mais distraídos, mas passaram apenas dois anos desde que a região centro do País foi transformada numa gigante fogueira. Entre junho e outubro de 2017, os incêndios florestais ceifaram 116 vidas, feriram 325 pessoas e desalojaram algumas centenas.

Um ano após a gigantesca onda de solidariedade, e ainda com a Nação condoída com as tragédias daquelas populações, chegaram os gritos de revolta por causa do desvio de donativos, onde os poderes públicos brindaram o País com um cocktail explosivo de negligência, irresponsabilidade e incompetência.

Se o inominável presidente da Câmara Municipal de Pedrógão Grande foi ator principal, a presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC), Ana Abrunhosa, foi o rosto da passividade. Foi ela a responsável que viu de menos, ouviu de menos, soube de menos e quis apurar ainda menos.

No verão passado, quando a VISÃO a entrevistou acerca das fintas aos regulamentos que permitiram que casas onde ninguém vivia fossem recuperadas com prioridade ou que barracões e ruínas tivessem sido transformados em moradias, Ana Abrunhosa assegurou que todos os casos foram validados com base em consumos de luz ou de água ou por via da morada fiscal – e quando isso não tivesse sido possível, reforçou, a verificação foi realizada através de visitas aos locais.

Nessa conversa, admitiu que até podem ter sido apoiadas obras em habitações que não tivessem ardido e reconheceu que foram considerados os domicílios fiscais à data da candidatura às ajudas e não aquando dos incêndios. Que conveniente...

Mais: Ana Abrunhosa ensaiou uma autêntica profissão de fé em relação a autarcas como Valdemar Alves, garantindo que os processos não venciam o crivo da comissão técnica do fundo Revita sem estarem devidamente instruídos pelas câmaras municipais. Nunca suspeitou, sequer, que alguns processos tivessem a assinatura de um vereador pedroguense que nunca pertenceu ao Gabinete Operacional de Recuperação e Reconstrução (e não ao presidente do dito gabinete, que era, por sinal, o filho do presidente do executivo local).

Foi tão aguda a perspicácia de Ana Abrunhosa e dos três membros da CCDRC que tinham assento na comissão técnica do Revita que nunca desconfiaram dos expedientes que os jornalistas detetaram em pouco tempo e que acabaram por traduzir-se na aplicação indevida de mais de 700 mil euros dos donativos, como concluiu o Ministério Público.

Quiçá pela ingenuidade que o cargo recomendava, a diligente presidente veio depois dizer-se enganada pelo fiável Valdemar Alves. Mesmo que, pouco tempo antes, tenha disponibilizado à Justiça somentes os processos respeitantes às intervenções financiadas pelo fundo público. As restantes – onde as patranhas saltavam igualmente à vista – nunca pareceram interessar-lhe muito...

Perante este ensaio voluntário sobre a cegueira, o que fez António Costa? Promoveu Ana Abrunhosa a ministra da Coesão Territorial. O que nos conduz a uma de duas conclusões, ambas pouco abonatórias para o primeiro-ministro. Ou não conhece o currículo da sua nova governante (e é grave); ou, pior ainda, sabe-o de cor e comprova a ligeireza e insensibilidade com que encarou e geriu as catástrofes de 2017.

Há dias, ouvi um telespectador ironizar e afirmar que, “com o PS, as maçãs caem para cima”. Não vou tão longe nem arrisco generalizações dessa natureza, mas desconfio que no novo Conselho de Ministros o que sobrar em habilidade tática vai escassear em conhecimentos de Física. Newton não ia gostar.