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Gato morto

Opinião

Miguel Araújo

Divulgacao

Os gatos são egoístas, não querem saber do seu semelhante, coitados, é uma condição da espécie. Por isso, em nada lhes interessa anteriores vítimas

Aqui na Cantareira há um café com esplanada, mesmo junto ao rio. Aqui a dois passos, um gato morto, sem qualquer sombra de dúvida atropelado. Há de ser varrido daqui para fora por algum funcionário da câmara de jardineiras verdes e listas laranja-fluorescente nas pernas, pá e apanhador, há de ser depositado nalgum saco de plástico e depois sabe Deus Nosso Senhor. Mas neste preciso momento jaz, desinsuflado, inerte, com as tripas despudoradas ao ar, um pobre felino que há de ter sido lambido por algum pneu com pressa. Não posso deixar de me compadecer com o último segundo de vida deste gato sobre a Terra. Não tanto pelo embate, não tanto pela capitulação. Mais pelo sentimento de traição, de espanto ante a implacável borracha prestes a trucidar-lhe a existência. Esse nanossegundo em que se dá a consciência de se saber traído com vileza. É que, por toda a vida deste gato de rua, de todas as vidas de todos os gatos de rua, os carros haviam sido inofensivos. Assustadores, barulhentos, mas inofensivos. Os gatos são egoístas, não querem saber do seu semelhante, coitados, é uma condição da espécie.

Por isso, em nada lhes interessa anteriores vítimas. Nunca repararam noutros companheiros de espécie espalmados contra o alcatrão. Nunca lhes interessou tal grotesco quadro citadino. Nem olham. Tanto quanto qualquer gato sabe é que pode andar por toda a lezíria urbana sem qualquer temor por essas monstruosas máquinas que emanam rugidos guturais e fumo pela cauda. É assim de todas as vezes, foi assim em todas as ocasiões em que atravessar ruas fez parte do itinerário do animal. Os carros desviam-se sempre, travam sempre, contornam suas rotas, driblam, rodopiam, contorcem-se, sobem passeios, podem até bater uns contra os outros mas nunca, vez nenhuma, tocam sequer no imaculado pelo do vadio felino. Foi assim das vezes todas, todos os dias, a vida toda. É só andar, não é preciso parar, escutar, olhar. Convém andar depressa, lesto, mas sem nada temer. Carros são inofensivos. Existe um pacto ancestral, de sempre, de não agressão. Por isso me compadeço sempre com o último momento destes bichos esventrados nas bermas das estradas. Como? Vais mesmo passar por cima de mim? Seria como se de repente um pardal desatasse a debicar-nos os olhos. Ou uma pomba nos cravasse as garras no escalpe. Porquê? A propósito de quê? Porquê agora? Que mal te fiz eu? Ambos concordámos em dançar esta valsa urbana em que as criaturas não se agridem assim. Há uma coreografia, uma coreografia de sempre. Os gatos passam e as viaturas desviam-se, na cabeça do gato sempre foi assim, a que se deve isto agora?

Eis agora a pobre criatura de Deus esborrachada contra o chão. De quando a quando, passa uma gaivota que lhe debica as entranhas com indiferença. Se os gatos fossem menos metidos consigo mesmos, talvez já tivessem reparado que as gaivotas têm a ponta do bico cor de sangue por alguma razão. Pobre gatinho.

Aqui pela Cantareira a vida prossegue como sempre. Já ali vem um par de funcionários da câmara fazer o número que lhes compete, a parte que lhes diz respeito nesta grande dança da cidade.

(Crónica publicada na VISÃO 1386 de 26 de setembro)