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A virtude foi de férias?

Opinião

José Brissos-Lino

Jeff J Mitchell

Diz o povo que no meio é que está a virtude. Só que não se consegue encontrar a senhora em lado nenhum. E, se foi de férias, ninguém sabe para onde

Talvez não valha a pena responsabilizar apenas as redes sociais por esta fase de profunda crispação nas relações humanas, que permite aos seus utilizadores esconderem-se atrás dum monitor e debitarem num teclado toda a espécie de acusações infundadas, disparates e diatribes contra quem quer que seja, tanto no plano político como nas relações sociais e profissionais.

Talvez este estado de coisas seja resultado também da onda de notícias falsas (fake news), da debilidade mental de boa parte das lideranças políticas do nosso tempo, do ressurgimento dos regimes autocráticos com aparência democrática, da desvalorização da ciência e dos saberes e subsequente glorificação da ignorância. E quem sabe até se as alterações climáticas que parece estarem a torrar os miolos de muita gente não terão aqui também alguma responsabilidade.

O facto é que resvalámos para um perigoso extremismo político pela mão dos populismos de direita e de esquerda, assistindo-se presentemente a uma tendência no sentido do desaparecimento das figuras moderadas e suas ideias e propostas, que foram sendo substituídas pela ascensão dos sectários, duma intolerância generalizada inexplicável e de proto-fascismos ideológicos de ambos os lados do espectro político. Bem sei que o fascismo enquanto regime político clássico do ponto de vista conceptual não está aí, mas o fascismo ideológico sim e mete-se pelos olhos dentro. Dum modo geral chamamos-lhes movimentos populistas.

Existe hoje uma profunda crise democrática no centro do espectro político. O que se vê são posições ideológicas extremadas, sempre associadas à emergência dos nacionalismos, da xenofobia, do racismo, do medo e do ódio ao imigrante, ao refugiado e ao estrangeiro. As opções ideológicas passaram a ser caracterizadas pelo tudo ou nada, vacilando entre um extremo e o outro. Se aparecem vozes de bom senso apelando ao equilíbrio, à moderação, à negociação e à diplomacia, são pouco ouvidas.

Os governantes recorrem hoje ao Twitter e outras redes sociais para insultar os seus interlocutores ou destilar ódios e boçalidade. Radicalizam. Dividem os governados. Já não se ouve dizer a um presidente, no discurso de vitória em noite de eleições, que vai trabalhar em favor de todos os compatriotas. Pelo contrário, governa em campanha permanente para criar tensões e cavar fossos entre faixas da população, agindo permanentemente como chefe de facção, a fim de manter os apoiantes em histeria de sustentação das suas posições, que por sua vez tendem a desculpar-lhes todas as asneiras, em nome da guerra que o seu eleito está a travar contra o “inimigo”. É o velho truque do “dividir para reinar”.

Compreende-se que o nacionalismo seja uma tentativa de resposta ao multilateralismo face a receio da perda de identidade ou poder. Mesmo no âmbito do projecto europeu se verifica a pulsão nacionalista, que abriu a porta ao Brexit e a fenómenos como os proto-fascistas Salvini, em Itália ou o húngaro Viktor Orbán, mas também a movimentos idênticos na Alemanha (AfD), França (Front National), Espanha (Vox) e outros. Mas o pior nacionalismo é quele que se mascara de patriotismo. Dizia Umberto Eco: “Alguém disse que o patriotismo é o último refúgio do cobarde; aqueles que não têm princípios morais normalmente enrolam-se numa bandeira e esses bastardos falam sempre na pureza da raça” (Cemitério de Praga, 2010).

Mas a origem dos populismos radica sobretudo na corrupção, em fenómenos associados à imigração, na política sem alma e num pragmatismo que destruiu qualquer tom ideológico na governação. Os jovens europeus que se deixaram seduzir pelo extremismo islâmico e aderiram ao Daesh procuravam sobretudo uma bandeira, embora de forma atabalhoada. Essa bandeira não era agitada em França desde o Maio de 1968 e na Alemanha desde 1989, quando caiu o Muro de Berlim e o país foi reunificado. Tal como aconteceu com o ocaso do comunismo no Bloco de Leste, a actual crise do capitalismo está aí e o sistema contorce-se à procura de algo novo.

Talvez a juventude europeia assuma agora a defesa do ambiente como a sua nova bandeira. Pelo menos é uma causa planetária que não divide países nem continentes, sendo do interesse de todos, até porque, em última análise, é da sobrevivência humana que se trata.

Em todo o caso valerá a pena lembrar aos cristãos, nestes tempos extremados, que a moderação é uma virtude a cultivar: “Porque Deus não nos deu o espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação” (2 Timóteo 1:7).

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José Brissos-Lino

José Brissos-Lino

Doutorado em Psicologia e Especialista em Ciência das Religiões; Diretor do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona; Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; Investigador do CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias – Universidade de Lisboa) e do CIPES (Centro de Investigação em Política, Economia e Sociedade – Universidade Lusófona). Desenvolve há muitos anos intensa atividade em instituições culturais, humanitárias e de solidariedade social, algumas das quais fundou.