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Paulo Mendes Pinto

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CIÊNCIA DAS RELIGIÕES

«People I saw but never met», o desafio humano de Zadok Ben-David

Opinião

Paulo Mendes Pinto

D.R.

Zadok apresenta uma magistral e desconcertante canção minimalista sobre a Humanidade. Ao longe, antes de entrar na sala onde se desenrola o centro da sua exposição, com umas 4000 figuras humanas, tudo parece igual, sem grande ou significativa individualidade. Mas após algum olhar mais atento, somos desarmados com uma avassaladora individuação de cada figura

“Pessoas que eu vi, mas eu nunca conheci” é o inquietante título de exposição que Zadok Ben-David apresenta no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, em Bragança, até dia 20 de Outubro, inaugurada aquando do evento Terra(s) de Sefarad - Encontros de Culturas Judaico Sefarditas, a 19 de Junho passado, numa iniciativa da autarquia brigantina.

Zadok apresenta uma magistral e desconcertante canção minimalista sobre a Humanidade. Ao longe, antes de entrar na sala onde se desenrola o centro da sua exposição, com umas 4000 figuras humanas, tudo parece igual, sem grande ou significativa individualidade. Mas após algum olhar mais atento, somos desarmados com uma avassaladora individuação de cada figura.

Aliás, essa natureza individualizada de cada uma das mais de 4000 figuras resulta da própria forma como Zadok as constrói. Ou melhor, como as vais recoletanto na rua, nos lugares por onde passa e onde se desloca. Cada figura é um processo de fotografia, desenho e posterior passagem a escultura. Mas nesse processo criativo, o que é único não se afasta da pessoa retratada. É sempre um indivíduo, com a sua história e o seu contexto, com um gelado ou uma mochila, com uma bicicleta ou um boné, com um carrinho de bebé ou com um casacão gigantesco.

Não, cada figura não tem um nome, não tem indicação do ser que a possibilitou. Mas a individualidade destas figuras vai muito além de um rótulo. É no confronto com os milhares de outros que casa peça escultórica desta instalação imensa se afirma como única. Se ao olhar ara uma pessoa, e depois para outra e outra, podemos muitas vezes não guardar bem memória das suas especificidades, é no confronto do nosso olhar com muitas outras que percebemos que, mesmo sem nome, mesmo sem detalhes de rosto que a identifiquem, ela é única e irrepetível.

Não só são baseadas, cada figura, num humano único e irrepetível, como elas mesmas são esculturas únicas e singulares. As línguas ajudam-nos imenso a chegar ao âmago dos significados: “indivíduo” é o que é “in-divíduo”, indivisível. Somos, na nossa antropologia existencial, o átomo que se suponha não mais ser divisível. E sim, se o átomo da Física já provou divisível em várias outras partículas subatómicas, o ser humano, fugindo ao simplesmente material da sua constituição somática, mostra-se uno e coeso quando falamos de sentimentos, de posturas, de emoções e de olhares.

E é que no olhar que Zadok me trai na minha própria perceção. É que, quantos “eus” estão naquelas figuras, umas maiores, outras mais pequenas? Tantos quantas as esculturas, diria eu. Mas não. As figuras são apenas a base que é multiplicada por cada um dos visitantes. Quantas das figuras não são olhadas “olhos-nos-olhos” pelo visitante, mas quantas o são? E muitas chamaram-se, incitaram-me a lê-las e a dar-lhes uma história, quase um nome. São esculturas de gente em acção, que mexe, já não em movimento, mas nas nossas mentes. Choca connosco, nas nossas memórias.

Mas estas figuras são ainda o ponto do olhar para outras figuras. Cortadas em metal, traduzem os contornos como se fosse o desenho antes realizado por Zadok. São esvaziadas de tudo o que lhes estaria a mais. São simples traço. Assim, são transparentes, e através delas vemos as outras imagens, reproduzindo o que fazemos nosso quotidiano quando olhamos o mundo através de pontos que tornam tudo relativo. Nada é opaco, tudo nos permite ver, mas enquadrado, criador de realidade.

Zadok obrigou-me a ir ver esta exposição várias vezes. Fui com prazer, mas fui num sentido existencialista. Fui ser confrontado. Afinal, eu poderia ter sido fotografado, desenhado e transformado em escultura pelo artista. Suponho que o não tenha sido. Mas sou a matéria de que são feitas todas as instalações das pessoas com quem me cruzo. Sou a parte que despoleta a imediata fotografia, o mais seguro desenho que fica na memória, ou a escultura que fica a povoar um imaginário.

Quem diria, somos todos potenciais peças de um processo de “zadokização” em que todos somos o artista e todos somos o modelo.

A tela onde se passa essa obra de arte é a Vida.

Paulo Mendes Pinto

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CIÊNCIA DAS RELIGIÕES

Coordenador da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona. Embaixador do Parlamento Mundial das Religiões e fundador da European Academy of Religions. É especializado em História das Religiões Antigas (mitologia e literaturas comparadas), mas dedica parte dos seus trabalhos a questões relacionadas com a relação entre o Estado e as religiões. Na área da Ciência das Religiões, é o responsável por diversos projectos de investigação, especialmente na relação entre as Religiões e a escola, assim como no desenvolvimento de uma cultura sobre as religiões como componente de cidadania. É ainda investigador da Cátedra de Estudos Sefarditas «Alberto Benveniste» da Universidade de Lisboa. É Membro do Conselho Consultivo da Associação de Professores de História. É director da Revista Lusófona de Ciência das Religiões. Recebeu a Medalha de Ouro de Mérito Académico da Un. Lusófona em 2013.