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Vamos falar de preconceitos?

Opinião

Pedro Norton

Boa parte da nossa esquerda zurziu no João Miguel Tavares pela simples razão de que ele é o João Miguel Tavares

Foi muito curioso (e ainda mais elucidativo) perceber como boa parte da esquerda reagiu aos discursos do dia 10 de Junho proferidos por João Miguel Tavares, primeiro em Portalegre e depois no Mindelo.

Mas permitam-me, antes ainda de me debruçar sobre essa esquerda e sobre o assunto que aqui me traz, que recorde aqueles que foram os dois temas das suas intervenções.

Em Portalegre, João Miguel Tavares centrou boa parte da sua intervenção a denunciar a falta de oportunidades em Portugal. Num discurso sentido, cheio de referências pessoais, que rompeu com a tradição de discursos enfadonhos no Dia de Portugal, atacou sem grandes rodriguinhos aquilo a que chamou uma séria avaria no elevador social da nossa democracia. Dificilmente o tema podia ser mais importante e mais atual. E é particularmente relevante que seja um liberal a pôr o dedo na ferida, na medida em que ninguém pode seriamente defender uma cultura do mérito em Portugal (discurso tão caro aos liberais) sem, simultaneamente, fazer uma guerra sem quartel à desigualdade de oportunidades. Aliás, é a ausência de empenho nesse combate que desacredita muita da retórica meritocrática dos liberais de conveniência. Enquanto for radicalmente diferente nascer em Lisboa ou em Portalegre, nascer numa família de baixos recursos ou num meio folgado, enquanto o caminho de uns for significativamente mais longo do que o caminho de outros, ninguém pode, em consciência, defender uma sociedade em que a progressão se faça exclusivamente pelo mérito. O meu aplauso, portanto, para a coerência das preocupações que partilho sem reservas.

No Mindelo, para incómodo de muitos, Tavares apontou baterias à fantasia do lusotropicalismo e ao bolorento mito de que em Portugal não existe racismo. A preocupação é, mais uma vez, absolutamente coerente com a expressada em Portalegre. Enquanto as várias gerações de afrodescendentes não tiverem, em Portugal, as mesmas oportunidades para singrar na vida do que qualquer um dos seus concidadãos, é evidente que não pode estar cumprido o sonho de uma sociedade justa, onde o mérito de cada um é a justificação única para aquilo a que poderíamos chamar uma sã desigualdade.

Resumidas (espero que não abusivamente) as intervenções, debrucemo-nos, pois, sobre a esquerda. Alguém se atirou à essência do que ficou dito? Alguém desmontou as ideias perniciosas do perigoso Tavares? Alguém refutou as teses? Claro que não. Eu não dei por isso. Nem tal podia acontecer. Pela simples razão de que nenhuma das ideias pode verdadeiramente repugnar à esquerda que – muito justamente – clama tradicionalmente também por uma maior igualdade de oportunidades e por um combate contra os racismos na nossa sociedade.

Mas nem por isso as reações, epidérmicas, superficiais, pavlovianas, foram menos violentas. É visitar as redes sociais, senhores. E este é o ponto. Boa parte da nossa esquerda (alguma inteligente, outra nem tanto) zurziu no João Miguel Tavares pela simples razão de que ele é o João Miguel Tavares. Perigoso liberal insuscetível de ter boas ideias ou de defender boas causas.

Pela minha parte estamos conversados sobre os arreigados preconceitos que a nossa esquerda diz não ter.

(Artigo de opinião publicado na VISÃO 1372 de 20 de junho)