Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Vaticano: “A última corte absolutista da Europa”

Opinião

José Brissos-Lino

ANDREAS SOLARO/Getty Images

Francisco voltou a surpreender com a sua franqueza, desta vez ao referir-se ao sistema vaticanista de governo da Igreja Católica, apesar das conhecidas críticas às “doenças da Cúria”

Segundo o portal Sete Margens, em entrevista à Televisa, quando “Valentina Alazraki lhe pergunta sobre a eventual contradição entre ‘uma Igreja em crise e um Papa que goza de popularidade’, o Papa Bergoglio responde com uma dura crítica à forma de governo que domina ainda o Vaticano.” Chega mesmo a classificar a sede do poder católico-romano como “última corte europeia de uma monarquia absoluta.”

Embora o essencial da entrevista seja sobre temáticas como o drama dos refugiados – recorde-se que mais de 70 milhões de pessoas sobrevivem hoje deslocadas por esse mundo fora, longe das suas casas ou países, devido a guerras e perseguições, o dobro de há 20 anos – o muro de Trump, o Islão, os jovens, a violência, a pobreza, os jovens e a condição feminina.

Francisco acredita que “a Igreja está a mudar” e confia que os cardeais desejem de facto uma reforma da instituição, falando mesmo em “crise de crescimento”. Aponta para algumas realidades da Igreja que, essas sim, estão em crise e precisam de desaparecer: “Sejamos conscientes. O Estado da Cidade do Vaticano como forma de governo, a Cúria, o que seja, é a última corte europeia de uma monarquia absoluta. A última. As demais já são monarquias constitucionais, a corte dilui-se, mas aqui há estruturas de corte que são o que tem de acabar.”

O sistema eclesial dominante parece obsoleto e está na base do grande e recorrente escândalo dos abusos sexuais de crianças, por parte de sacerdotes espalhados pelo mundo, na medida em que não apenas se presta a abusos de poder, em especial sobre os inocentes e mais fracos, mas sobretudo pelo encobrimento persistente que o papa tenta agora travar a todo o custo.

Mas tal sistema também impede a valorização da mulher nas estruturas do catolicismo, relegando-a para um lugar secundário, numa dissonância chocante com a vida e a sociedade, onde a discriminação de género se vai esbatendo das artes à cultura, da universidade às forças armadas e da governação às empresas, passando por todas as profissões, mas também nos outros sectores do cristianismo em todo o mundo. A tentativa de conceder um ministério às mulheres surge através da reorganização eclesial que se prepara para a assembleia especial do Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia, que decorrerá em Outubro, e reunirá bispos do Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Peru, Venezuela e Suriname, assim como “homens e mulheres pertencentes aos povos amazónicos”, que possam “transmitir os seus desejos e anseios mais profundos”, dentre os quais “identificar o tipo de ministério oficial que pode ser conferido às mulheres, tomando em conta o papel central que hoje desempenham na Igreja amazónica”.

O documento que sair da assembleia sinodal incluirá propostas a entregar ao Papa que, a partir daí, redigirá uma exortação apostólica, com orientações a seguir. Provavelmente poder-se-á vir a abrir a ordenação de mulheres ao diaconato, num primeiro momento, de modo a mostrar alguma abertura mas, simultaneamente, sem assustar os sectores mais conservadores, que nunca aceitariam o elemento feminino no sacerdócio, pois tal inovação quebraria o modelo milenar de uma Igreja no masculino.

A ideia que fica é que se pretende ir do local para o global, numa perspectiva mais atenta às necessidades da Igreja e aos problemas das populações, ao contrário do que é a tradição da cúria romana, que tende sempre a falar de Roma para o mundo. Ao focar a América Latina em especial e a Amazónia em particular, talvez a região do mundo onde o catolicismo mais terreno tem perdido para as igrejas evangélicas e os grupos neopentecostais, Francisco (que conhece bem a região) procura estancar essa sangria, mas também, a partir daí, ganhar força para impor uma reforma eclesial num tipo de governo imperial que subsiste no Vaticano.

Desde o início do seu pontificado o papa deu inúmeros sinais de desconformidade com a filosofia de poder dominante, ao não pernoitar nos aposentos papais, ao gostar de caminhar pelas ruas (“gosto muito de andar na rua, aprendo muito na rua”), ao admitir que é uma “pessoa” (dessacralizando assim a função) e até na fórmula calorosa e informal com que se dirigiu ao povo católico, desde a varanda da Praça de S. Pedro no dia da sua eleição. Todavia, não é tanto por isto que está sob fogo dos sectores ultramontanos, mas sim porque não esconde de ninguém o seu desejo de reformar a estrutura eclesial, coisa que o conservadorismo dominante não permitirá sem uma luta feroz.

Há quem não aprenda com as lições da História. No século XVI foi o que se viu, e a igreja católica acabou mesmo por ter de beliscar o seu absolutismo e fazer uma reforma sob pressão. Mas o preço que pagou pelo atraso foi muito alto.

José Brissos-Lino

José Brissos-Lino

Doutorado em Psicologia e Especialista em Ciência das Religiões; Diretor do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona; Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; Investigador do CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias – Universidade de Lisboa) e do CIPES (Centro de Investigação em Política, Economia e Sociedade – Universidade Lusófona). Desenvolve há muitos anos intensa atividade em instituições culturais, humanitárias e de solidariedade social, algumas das quais fundou.