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Manuel Delgado

Manuel Delgado

Professor da Escola Nacional de Saúde Pública

A justiça na TV

Opinião

Manuel Delgado

Towfiqu Photography/ Getty Images

Os canais de televisão enveredaram por um tipo de programas, ditos de investigação, que são uma fórmula de sucesso na guerra das audiências: junte-se uma boa denúncia para acerto de contas, uma situação escabrosa ou profundamente dramática, meia dúzia de testemunhos preparados; misture-se tudo, com uma produção exemplar e uma sonoplastia a preceito; escolha-se um alvo, muitas vezes incauto, e aí está o escândalo, a humilhação pública dos “prevaricadores”, o fim da reputação de pessoas ou instituições.

Se em muitas situações estas denúncias públicas correspondem a factos ou comportamentos reprováveis de pessoas ou instituições, há também casos em que a “verdade” é desmentida a seguir, ou pelos visados ou pela investigação judicial. Nestes casos não é fácil reparar o mal que já está feito, prejudicando-se irremediavelmente a vida e a reputação dos envolvidos.

Vem isto a propósito dos recentes casos que envolvem serviços hospitalares.

Não estão em causa as falhas graves que são apresentadas, cuja veracidade, em princípio, parece evidente. E, também, não questionemos o sofrimento de doentes e familiares envolvidos nessas situações.

Mas tenhamos respeito pelas instituições, pelo seu trabalho exemplar em prol dos doentes, em milhões de contactos anuais, nas urgências, nas consultas, nos blocos operatórios ou no internamento. Arrastar para a valeta profissionais e milhares de famílias e doentes que confiam nessas instituições, é um péssimo serviço que prestamos à comunidade. Escalpelizemos os erros, solicitemos indemnizações, sejamos solidários com as vítimas, mas evitemos a demagogia, as generalizações precipitadas e a condenação sumária.

Ainda recentemente vi posto em causa o modelo de Acreditação de Hospitais, que comporta apreciações sobre a estrutura, os processos e os resultados. Ouvi opiniões, no mínimo insensatas, sobre o conceito de acreditação, reduzido a mero expediente administrativo, quando se sabe do seu imenso valor para analisar a conformidade de diversos procedimentos clínicos, designadamente na área da segurança dos doentes. Um caso de má prática deve ser objeto de censura, de correção e, se for o caso, de penalização, e o doente deve ser ressarcido. Mas isso não permite pôr em causa todo o processo de acreditação, os certificados obtidos e a boa prática de centenas de profissionais. Andou, num determinado caso, mal a administração de um hospital? É uma hipótese. Andaram mal alguns profissionais, por atuação negligente ou desrespeitosa? É bastante plausível.

Trabalho na avaliação da qualidade dos cuidados de saúde há mais de uma década e sei - sabemos todos - que pugnar pelas boas práticas evita muitos erros, mas não exclui, em nenhum hospital do mundo, a possibilidade de ocorrerem efeitos adversos, alguns fatais e, ainda, que alguém tenha práticas ou atitudes grosseiramente negligentes. Há regras para avaliar estas situações, responsabilizar as condutas erradas e reparar, dentro do possível, os danos causados a terceiros. O Estado e as Administrações têm aqui um papel relevante que até agora tem permanecido alheado das suas prioridades.

Recomendaria mais prudência, menos generalizações e, já agora, uma ética irrepreensível, na abordagem destes casos de má prática na Saúde. São temas de fácil efeito mediático, e que influenciam brutalmente as expetativas e a opinião dos telespectadores. Daí a cautela, o rigor e a sobriedade que devem pautar a atuação dos “media”.

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Manuel Delgado

Manuel Delgado

Professor da Escola Nacional de Saúde Pública

Professor da Escola Nacional de Saúde Pública