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Proa

Opinião

Miguel Araújo

D.R.

Nunca mais vou esquecer-me desse dia, enquanto as minhas células cerebrais se forem nutrindo do oxigénio necessário. Foi nesse dia que eu dei o meu primeiro concerto

No dia de Carnaval do ano de 1992 fui almoçar com a minha família alargada (pais, tios, primos) ao restaurante Proa, em Matosinhos. É uma marisqueira que fica num edifício em forma de proa de navio, na esquina da Rua Sousa Aroso com a Avenida Norton de Matos, a avenida marginal de Matosinhos. Nesse dia de Carnaval de 1992 eu tinha precisamente 13 anos e meio. Nunca mais vou esquecer-me desse dia, enquanto as minhas células cerebrais se forem nutrindo do oxigénio necessário. Foi nesse dia que eu dei o meu primeiro concerto.

Eu tocava baixo na banda dos meus primos, pragmática e frugalmente batizada meses antes de Primus (a homónima banda californiana Les Claypool não constava, à data, dos nossos conhecimentos), e tínhamos sido contratados para animar o convívio de Carnaval da paróquia de Cristo Rei, no salão de baile da igreja paroquial que fica na Praça Dom Afonso V, no Porto. Lembro-me de tudo desse dia. E lembro-me do almoço na Proa. Lembro-me de não comer. De estar com febre por causa do pânico que a ideia mortificante de tocar o Rock Around the Clock, o Long Tall Sally e o Long Train Running na presença de 200 desconhecidos me causava. Era um terror paralisante. Devo ter ficado com alguma espécie de trauma, porque esse pânico acompanhou-me até há não tanto tempo assim. Às vezes, penso como é que a vida me encaminhou para aqui, mesmo assim.

Eu ali na Proa a tentar engolir uma omelete, naquele cenário de redes de pesca, boias e lemes de madeira a adornar as paredes de madeira do andar de cima, com vista para o imenso mar de Matosinhos, à data inútil para as atividades balneares por força do matadouro que vomitava as suas descargas peçonhentas e avermelhadas mesmo junto à praia. As minhas tias a debater a indumentária dos meninos, claro que têm de ir bem vestidos, mas é Carnaval, não interessa o que é que é, vão com os blazers,a mera ideia petrificante de nós dali a umas horas de blazer com um emblema cosido no peito e sapatos de vela a entreter os convivas da paróquia de Cristo Rei. A omelete cada vez maior.

As vozes das tias cada vez mais ao longe, e a febre, a febre. Voltei à Proa umas quantas vezes a seguir a isso, ao longo dos anos.Mas nunca mais subi lá acima, fiquei-me sempre pelo balcão. Da última vez que lá fui, pensei que ia lá poucas vezes. De facto, fui poucas. Hoje passei à porta da Proa, fui ter uma aula de surf com os meus filhos ao regenerado, regenerativo, milagroso, entretanto despoluído mar de Matosinhos e reparei que a Proa fechou. A firme, inabalável, imponente e majestosa Proa, com o seu nariz altivo a fazer-se com desplante ao mar imenso de Matosinhos, fechou. Ao fim de 49 anos de atividade, foi-se. Parece que vai nascer ali um Burger King. Eu não sou dado a nostalgias, aceito que as cidades são organismos vivos com leis próprias e que “todo cambia, todo cambia”, como cantava uma espanhola com um ukelele desafinado numa ruela de Lagos na semana passada.

Mas nunca pensei que a Proa poderia fechar um dia. Desconheço (muito menos condeno) as razões de tal morte abrupta e precoce, mas confesso que me culpei pelas vezes todas que não fui lá e, pelos vistos, deveria ter ido. Lembrei-me da omelete difícil de tragar naquele almoço do dia de Carnaval de 1992, dos motivos atlânticos que adornavam as paredes de madeira do andar de cima, lembrei-me de ter 13 anos e meio e de temer com todas as forças da minha alma o abismo que, pelos vistos, me puxava com toda a força, como o mar que reclama para si todas as águas, todas as chuvas, todos os ribeiros, até à última gota.

(Opinião publicada na VISÃO 1368 de 23 de maio)

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