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A moda dos “currais” eleitorais já cá chegou?

Opinião

José Brissos-Lino

Sean Gallup/ Getty Images

A prática nefasta de “currais eleitorais” em muitas igrejas é uma realidade brasileira. Terá chegado finalmente a Portugal, ou trata-se antes de uma tradição antiga entre nós, mas agora sujeita a um sufrágio muito mais atento e exigente por parte dos cidadãos?

O Patriarcado de Lisboa partilhou um claro apelo ao voto no CDS, no Nós Cidadãos e na coligação Basta. Segundo a imprensa, Manuel Clemente atribui tal decisão a um erro do gestor do Facebook, corrigido ao mandar apagar a publicação, por reconhecer as interpretações políticas que suscitava em plena campanha para as eleições europeias e por não se reconhecer em todas as posições demonstradas. “Admitimos que foi uma imprudência”, reconhece, e adianta que a única coisa que defende em matéria de defesa da vida é a que está na carta pastoral dos bispos portugueses, divulgada a 2 de maio, sobre as eleições.

A publicação constava de um gráfico elaborado pela Federação Portuguesa pela Vida, que resume as posições dos partidos políticos nacionais com base em seis critérios, mas ao que parece com pouca precisão. Os principais partidos concorrentes, ouvidos depois do recuo, assobiaram para o lado e seguiram caminho, até porque não lhes interessa entrar em confronto com a igreja católica.

No final dos anos oitenta, discutiu-se no meio evangélico português a possível criação dum partido político que representasse este sector religioso. Apesar de na época existir algum entusiasmo com a ideia, a verdade é que, no primeiro debate (e ao que parece, único) que se realizou sobre a temática, alguém de bom senso fez notar que não era possível esboçar uma doutrina económica onde todos se sentissem representados, dada a diversidade sociológica do meio, e o projecto acabou por morrer na casca. Ainda bem.

Mais tarde surgiram agrupamentos políticos de vocação confessional (embora não assumida), a propósito do debate sobre a legislação da interrupção voluntária da gravidez, mas que em eleições sucessivas nunca lograram obter ganhos eleitorais significativos e que agora decidiram surfar a onda do populismo de direita.

A preocupação com o populismo existe em toda a Europa. Em documento preparado pela lobista Julia Doxat-Purser, representante sócio-política e coordenadora da Liberdade Religiosa da Aliança Evangélica Europeia (EEA), aquela federação de organizações nacionais veio manifestar a sua preocupação com a tendência para o extremismo que se verifica “nos programas e na retórica” dos partidos: “Tanto os novos movimentos políticos, como os antigos, competem por votos, identificando-se contra o ‘outro’. Normalmente fomentam a raiva, a queixa e o medo, e oferecem soluções simples. As pessoas escolhem o seu lado, onde se posicionam. Os cristãos fazem o mesmo”. Note-se que este alerta contra “a intolerância e o potencial desastre político” surge pela primeira vez a público, por parte duma organização religiosa normalmente muito discreta nestas matérias. De facto, quem conhece a história da Europa não pode deixar de se preocupar.

Por outro lado, as campanhas eleitorais em Portugal parece que são dirigidas a pessoas com défice cognitivo. Os partidos concorrentes não resistem à tentação de vender soluções fáceis e imediatas para problemas altamente complexos, como se tivessem uma varinha mágica. Mas afinal não é essa uma das caraterísticas principais dos movimentos populistas? Mentem descaradamente para procurar justificar as suas posições ou apagar a realidade histórica. E não é isso que fazem também os populistas? Procuram culpar as elites por todos os males deste mundo (incompetência, compadrio, corrupção) de modo a afirmarem a bondade do povo (seja lá o que isso for) e apresentam os activos humanos próprios como os melhores, mais honestos e capazes. Mais uma vez, é exactamente esta a prática populista. Portanto, não se queixem se qualquer dia o populismo tomar conta disto.

Acresce que no caso destas eleições discute-se tudo menos política europeia. É assim que querem baixar os níveis de abstenção e interessar as populações pelas questões europeias que têm tanto reflexo na nossa vida quotidiana? Mais. A forma como se desenham as campanhas eleitorais está obsoleta. É feita em função das televisões que cada vez menos gente vê, em especial os mais jovens. Esta infantilização política que no comentário político atribui a maior importância ao penteado, à capacidade de comunicação ou às pequenas gaffes dos candidatos-cabeças de lista, em vez de deixar isso aos humoristas, atesta bem a saúde frágil da nossa democracia e um dia destes vai custar-nos muito caro. Assim, tão responsáveis por este estado de coisas são os actores políticos como os eleitores. Uns porque fazem campanha como se o país fosse um imenso manicómio e outros porque alinham na brincadeira. Se ao menos as organizações religiosas não se souberem colocar no seu lugar, então vamos mesmo de mal a pior.

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José Brissos-Lino

José Brissos-Lino

Doutorado em Psicologia e Especialista em Ciência das Religiões; Diretor do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona; Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; Investigador do CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias – Universidade de Lisboa) e do CIPES (Centro de Investigação em Política, Economia e Sociedade – Universidade Lusófona). Desenvolve há muitos anos intensa atividade em instituições culturais, humanitárias e de solidariedade social, algumas das quais fundou.