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Manuel Delgado

Manuel Delgado

Professor da Escola Nacional de Saúde Pública

Criar valor para os doentes

Opinião

Manuel Delgado

Hoxton/Tom Merton/ Getty Images

Falta de informação, excesso de exames, erros disgnósticos, terapêuticas redundantes ou inadequadas, falta de meios de acompanhamento, atrasos, etc., diminuem substancialmente a possibilidade de criação de valor e são, infelizmente, fenómenos frequentes e que sinalizam más práticas e erros evitáveis

Decorreu no dia 10 de maio uma cimeira em Cascais, patrocinada pela Universidade Nova de Lisboa, sobre a criação de valor para os doentes.

Nada de mais louvável. É elementar estarmos atentos e avaliarmos o que os doentes ganham quando recebem cuidados de saúde: educação/conhecimento, diagnóstico, tratamento, reabilitação e bem-estar.

Falta de informação, excesso de exames, erros disgnósticos, terapêuticas redundantes ou inadequadas, falta de meios de acompanhamento, atrasos, etc., diminuem substancialmente a possibilidade de criação de valor e são, infelizmente, fenómenos frequentes e que sinalizam más práticas e erros evitáveis.

O que esta cimeira propõe vais mais além: pretende perceber o valor criado para o doente, de forma duradoura e consolidada. Isto é, perceber o impacto para a vida das pessoas, não em termos correntes, mas sobretudo em termos futuros: ausência de doença ou cura e ausência de sequelas ou limitações; recuperação, da autoconfiança, da vida social, da vida familiar e, se for o caso, da vida profissional. O grau ou nível em que estes atributos são recuperados e o tempo em que isso acontece, definirão o valor criado para cada doente, bem assim como a sua própria satisfação.

Esta missão e estes objetivos inserem-se no que podemos chamar uma cultura de resultados, em que nos focamos na qualidade de vida futura dos doentes, após um episódio de doença ou ao longo de uma doença crónica. Mais do que medir recursos ou processos de trabalho, importa ir diretamente à avaliação de resultados, afinal o fim último de qualquer serviço ou prestação.

Não seria justo omitir aqui, o trabalho de avaliação que tem sido feito em Portugal, quanto ao tempo e ao modo como os cuidados de saúde são prestados nos serviços públicos: a garantia de acesso, o controlo dos tempos de espera máximos de resposta garantidos, o controlo das infeções e dos acontecimentos adversos, a redução dos tempos de internamento, a avaliação da mortalidade e das complicações, os procedimentos minimamente invasivos ou a cirurgia ambulatória. Todos estes indicadores e muitos outros são hoje objeto de acompanhamento, pese embora nem sempre os respetivos objetivos sejam cumpridos, como acontece com os tempos de espera ou as taxas de infeção hospitalar, aonde estamos ainda longe de atingir as metas estabelecidas. Cumprir estes compromissos por parte das instituições e dos serviços médicos é criar valor para os doentes, porque previnem riscos, reduzem estadios de doença mais severos, aumentam o conforto e potenciam bons resultados finais.

É verdade que esta cultura de avaliação está ainda longe de ser prática corrente nos nossos serviços de saúde. A sensibilização das Direções e Chefias médicas é ainda uma necessidade imperiosa, pese embora o esforço que o poder político e a gestão de unidades de saúde têm realizado nos últimos anos. Sem lideranças capazes e focadas na governação clínica, não será possível instalar uma nova cultura ou um novo compromisso quanto aos resultados.

Avaliar resultados, projetados no destino e no bem-estar dos nossos doentes, sem termos feito o “trabalho de casa” no que concerne à governação clínica, é dar um passo maior que a perna, que não acautela a qualidade dos cuidados prestados, o efeito potencial de externalidades e a eficiência das instituições.

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Manuel Delgado

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Professor da Escola Nacional de Saúde Pública

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