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Carta a um jovem político

Opinião

Mafalda Anjos

Não atirarás aos teus pés e muito menos aos joelhos. Há quem se esqueça de que certos ataques fazem ricochete a velocidade estonteante [Ficção inspirada nas Cartas a um Jovem Jornalista, de Juan Luis Cebrián]

Escreves-me, rapaz, para trocarmos ideias acerca desta crise política fugaz mas intensa. Dizes-me tu que ficaste entre o empolgado e o atónito com a associação da esquerda e da direita contra o Partido Socialista e a ameaça de demissão do primeiro-ministro. Eu, hoje um político reformado que já viu muito, também fiquei pasmado com tudo o que aconteceu e com o tamanho dos erros de palmatória cometidos.

A política é como a vida, é sabido, há dias em que tropeçamos nos próprios pés sem sabermos bem porquê, só que nesta vida pública os erros pagam-se caros, custam imagem e votos. Mesmo nestas alturas em que a memória é curta e tudo parece só existir durante o tempo em que as indignações e as hashtags estão a vibrar nas redes sociais. Mas há algo de bom que podemos retirar de tudo isto: algumas lições de habilidade social, mais do que de política. A arte da política não é mais do que a sabedoria da convivência em sociedade, mas acho que alguns políticos de hoje se esquecem disso. Ou nunca souberam, vê lá tu. Resumi-as em seis, para arrumarmos juntos as ideias.

1. Não desafiarás alguém para a luta se não fores capaz de andar à pancada. Parece evidente, eu sei, mas viste como Assunção Cristas e Rui Rio decidiram dar um golpe arriscado e, num ápice, tiveram de recuar face à defesa de mãos e de pés do primeiro-ministro? Subestimar o adversário, ainda por cima no caso de António Costa, que é um político do mais hábil que Portugal já viu, a seguir a Mário Soares, é sempre muito má ideia. Isto é como no xadrez, ser apanhado desprevenido pode revelar-se fatal.

2. Não te aliarás a pessoas com as quais não gostarás de ser visto. Fazer conluio com os inimigos pode ser tentador, mas custar-te-á a imagem, sobretudo se existirem provas fotográficas embaraçosas do momento da conspiração. Evita-o a todo o custo, mas se o fizeres ao menos tens de ter tudo controlado.

3. Não atirarás aos teus pés e muito menos aos joelhos. Há quem se esqueça de que certos ataques fazem ricochete a velocidade estonteante. Então, faz algum sentido ajudar o adversário, dando-lhe as armas para se vender como bom da fita, responsável e de confiança, quando se andou tanto tempo a dizer que ele era um despesista inconsequente? E como pode, no dia seguinte, vir um líder partidário dizer que não conhece alterações legislativas tão relevantes que o seu próprio partido aprovou?

4. Não cuspirás no prato em que comeste. Nunca é boa ideia assumirmo-nos como defensores de discursos ou de causas que, durante anos, andámos a propalar como irrealistas e inconsequentes. Se construímos uma imagem à base de uma determinada maneira de ser e de estar, não vamos agir contra tudo o que defendemos num momento oportunista, sobretudo se for pré-eleitoral. Os que gostavam de ti vão ficar bastante desiludidos, e os outros vão ver-te como troca-tintas.

5. Não contarás com o ovo no rabo da galinha. Os eleitorados do centro, isso já tu sabes, não estão por estes dias para brincadeiras – temos de andar com eles nas palminhas para que não se indignem e se mudem para outras bandas. Para o principal inimigo, é bem possível, se lhes deres razões para confiar nele, ou para grupos de agitadores rebeldes que andam por aí.

6. Não darás um fogo por extinto antes do tempo. É bom não ficar inebriado com a vitória. As crises políticas passam, mas deixam mossas. A falta de confiança entre parceiros instala-se, as velhas amizades desfazem-se. Se é certo que uma maioria absoluta parece hoje mais possível do que era há escassos dias, uma geringonça é mais complicada. E convêm não secar nenhuma torneira antes de as chamas serem dadas por controladas.

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Mafalda Anjos

Mafalda Anjos

Diretora

Germanófila por educação, entranhou-se-lhe o método e uma certa ética alemã. Estudou para advogada e chegou a pensar que ia ser constitucionalista, mas viu a luz no jornalismo, que continua a apaixoná-la todos os dias. Desde 2015 na VISÃO, esteve antes 10 anos na economia, nos quais passou por vários títulos, e depois no Expresso, onde editou a revista durante 7 anos. Devoradora de revistas, gadget freak, atenta às tendências globais, precisa de internet como de água potável. Tem quatro filhos, um marido, um cão e uma pão de forma chamada Marisol.