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É possível amar um terrorista?

Opinião

José Brissos-Lino

Anadolu Agency/ Getty Images

A perseguição religiosa toca a todos e é uma das que causa mais vítimas em todo o mundo, talvez porque o fanatismo religioso é o pior de todos. Curiosamente fala-se pouco no Ocidente da cristianofobia, que origina, provavelmente, a maior das perseguições

É evidente que existem correntes anti-semitas um pouco por todo o lado, na linha duma malfadada tradição milenar, mas que foi agravada nas últimas décadas, em particular a partir do nazismo. Os judeus são, de facto, um povo especial, e a história mostra de forma recorrente que pagaram um preço elevado pela sua singularidade, com perseguições, expulsões e execuções em massa. Mas decerto que a animosidade contra os judeus se deve hoje, em grande parte, à actuação política do moderno estado de Israel, em particular na difícil convivência com os palestinianos.

O Islão também se pode queixar do passado. Sendo uma religião de vocação universalista, tal com o cristianismo – ao contrário do judaísmo –, ambas teriam que chocar entre si, inevitavelmente, com vista ao desígnio da sua expansão. Mas hoje a islamofobia cresceu exponencialmente pela mão da extrema-direita, dos nacionalismos e dos supremacistas brancos no mundo ocidental, em resultado dos populismos que se vão instalando paulatinamente e da problemática dos refugidos e migrantes.

Consta que em dez meses foram queimados onze templos cristãos em França. A verdade é que a investigação do Pew Research Center publicado em Julho de 2018 e referente à situação em 2016, “os cristãos são o grupo religioso com mais restrições em todo o mundo, em termos absolutos”. Nesse ano registaram-se restrições e assédio em 144 dos 198 países analisados. Só depois surgem os muçulmanos, que viram a sua actividade religiosa limitada e que foram alvo de assédio em 142 países.

Sendo o cristianismo a maior religião do mundo em termos de fiéis, não admira que sejam igualmente os mais perseguidos. Segundo Nelson Jones, autor do blogue Heresy Corner, citado por Alexandre Martins, “pela mesma lógica, seria de esperar que os muçulmanos fossem o segundo grupo mais perseguido.” E de facto é isso que se depreende dos números do Pew Research Center: “O assédio aos membros dos dois maiores grupos religiosos – cristãos e muçulmanos – por governos e grupos sociais continua a ser generalizado em todo o mundo, e ambos foram alvo de um aumento do número de países que os assedia em 2016.”

Mas o terceiro grupo religioso mais perseguido em todo o mundo é o judaísmo, o que é estranho devido ao facto da sua reduzida expressão numérica. Julga-se que os judeus representem apenas 0,2% da população mundial, em comparação com 31% de cristãos e 24% de muçulmanos. Portanto, os judeus continuam a ser o grupo religioso mais perseguido, em termos relativos, dada a sua população.

O conjunto dos ataques perpetrados por bombistas suicidas cingaleses no Sri Lanka contra igrejas cristãs (católicas e protestante), assim como em hotéis, terão uma leitura mais política visando a indústria do turismo. O grupo extremista islâmico local Thawahid Jaman já era conhecido pela autoria de actos de vandalismo contra símbolos da maioria budista do país. Contudo, diga-se que muito do que é identificado como perseguição religiosa não é mais do que luta pelo poder, onde a religião funciona apenas como pretexto ou catalisador emocional.

Mas a resposta das comunidades cristãs locais é de paz e perdão. Segundo a revista americana Relevant, mesmo face a esta terrível tragédia, o pastor da Igreja de Zion (protestante), Roshan Mahesan, diz que perdoa os homens-bomba responsáveis ​​pelos ataques do Domingo de Páscoa. Numa mensagem em vídeo, o pastor Roshan declarou: “Estamos feridos. Também estamos zangados, mas ainda assim, como pastor titular da Igreja de Sião Batticaloa, toda a congregação e toda família afectada, dizemos ao homem-bomba, e também ao grupo que o enviou, que os amamos e perdoamos. Não importa o que tenham feito, nós amamo-vos porque cremos no Senhor Jesus Cristo”.

O deputado Abraham Sumanthiran resolveu fazer também uma importante declaração de fé: “Eu sou cristão e compartilho da tristeza da igreja cristã no Sri Lanka neste momento. Cremos em Jesus Cristo, que veio a este mundo, sofreu como nós e levou o pior do mal para si e foi crucificado injustamente. Mas ele derrotou todo o mal através do amor sacrificial, que é o que celebramos na Páscoa – o dia da ressurreição”. O sentimento é que, ainda que a população esteja em sofrimento, não quer entregar-se ao ódio e vingança. De igual modo, o padre Jude Fernando, que oficiava numa das igrejas atacadas, declarou: “Nós amamos a paz. Nós perdoamos. O nosso Deus é um Deus de paz, e não de vingança. Nós vos amamos e perdoamos”.

Este é o caminho.

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José Brissos-Lino

José Brissos-Lino

Doutorado em Psicologia e Especialista em Ciência das Religiões; Diretor do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona; Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; Investigador do CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias – Universidade de Lisboa) e do CIPES (Centro de Investigação em Política, Economia e Sociedade – Universidade Lusófona). Desenvolve há muitos anos intensa atividade em instituições culturais, humanitárias e de solidariedade social, algumas das quais fundou.