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As mulheres do Couço

Opinião

Rita Rato

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A democracia e a liberdade não caíram do céu, passados 45 anos da Revolução de Abril, a coragem destas mulheres e destes homens (e até a vida de alguns) não pode ser espezinhada e as manobras mais ou menos descaradas de branqueamento e promoção do fascismo exigem combate firme e permanente

Tirou do caderno da escola uma folha sobre a visita de estudo, entregou-ma, disse que seria ao Couço e que iam estar com antigos presos políticos daquela vila ribatejana. Lembrei-me logo delas.

Tinha ela sete anos e meio quando a vizinha lhe deu a notícia, Não chores Maria, não foi só o teu pai que foi preso, foram muitos. Mas não chores, a Guarda vinda de Coruche e Santarém cercara a aldeia e prendeu os trabalhadores do campo que lutavam por melhores salários. Foi uma terra muito castigada pelas prisões, como outras do Sul, onde a fome e a miséria eram o rastilho da revolta e da consciência de que não podiam (sobre)viver assim. Maria da Conceição acabou por ser presa também em 1962, juntamente com o marido e o vizinho, foram levados para o matadouro, quais animais para abate, e depois para Caxias, onde foi brutalmente ofendida, espancada e torturada, confessa que só tinha medo que fizessem pouco da gente, de resto, não tinha medo de nada.

Quando a mãe lhe levava a filha de nove anos à António Maria Cardoso, diziam-lhe para ir a Caxias buscar a ordem da visita, quando lá chegavam, era mentira, não tinham ordem nenhuma, era simplesmente para massacrar as pessoas. Custódia escreveu várias cartas ao diretor da PIDE para ver a pequena, a resposta foi sempre a mesma, negativa. Por isso, Maria Rosa Viseu não tem dúvidas, quando a PIDE se apercebeu que as mulheres desempenhavam (no Partido) tarefas como os homens, foi quando as mulheres do Couço começaram a ser espancadas, a passar noites na polícia, a fazer estátuas de pé, enfim torturadas.

Mulheres do Couço é uma reportagem de abril de 1999, de Luís Osório para a RTP, muitos anos tinham passado quando as filmou, mas existem feridas que o tempo não sara. Lembrei-me delas quando, há dias, Rui Rio expeliu que andámos cheios de sorte, não tivemos fascismo em Portugal. Sim, o fascismo existiu em Portugal. Entre 1932-51, registaram-se 20 552 prisões políticas; em 1930, o Ato Colonial institui o trabalho forçado nas colónias; a guerra colonial durou 13 anos, provocou 10 000 mortos e 30 000 feridos entre os portugueses e muitos mais milhares de vítimas entre os povos das ex-colónias. A pobreza, o analfabetismo e a mortalidade materno-infantil grassavam, o casamento católico não permitia o divórcio, e o Código Penal permitia ao marido matar a mulher em flagrante adultério.

A democracia e a liberdade não caíram do céu, passados 45 anos da Revolução de Abril, a coragem destas mulheres e destes homens (e até a vida de alguns) não pode ser espezinhada, e as manobras mais ou menos descaradas de branqueamento e promoção do fascismo exigem combate firme e permanente.

Lá no Couço não vão encontrar Maria Rosa Viseu, morreu há cinco anos, mas não faltará quem lhes fale do valor da liberdade e da importância de o defender todos os dias para construir um País mais justo e uma vida melhor para todos. 25 de Abril Sempre, Fascismo Nunca Mais!

(Artigo publicado na VISÃO 1364 de 25 de abril)

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Rita Rato

Rita Rato

Deputada do PCP