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Que a queda do pináculo não seja a morte de Quasímodo

Opinião

José Brissos-Lino

FRANCOIS GUILLOT

A catedral de Notre-Dame de Paris, que começou a ser construída apenas vinte anos de pois de Portugal nascer como país, morreu agora um pouco, mercê dum terrível incêndio, simbolizando assim a morte duma certa forma de religião na Europa

Este monumento da Île de la Cité, em Paris, representa boa parte da história do continente, onde vários templários foram executados (1314), onde Napoleão Bonaparte se fez coroar imperador e Josefina imperatriz de França (1804), e Joana d’Arc foi beatificada (1909). Em 1831 Victor Hugo consagrou o templo neogótico num romance passado na Idade Média, no qual deu vida ao famoso corcunda de Notre-Dame, Quasímodo, que se apaixona pela cigana Esmeralda. A catedral foi erguida em 1163 e iniciou a função religiosa em 1182, embora só em 1345 se tenha concluído a construção. Escapou a ser incendiada durante a turbulência social da Comuna de Paris, em 1871, e livrou-se de explodir, por ordem directa de Hitler, que a mandou armadilhar no Verão de 1944, mas o general von Choltitz desobedeceu. Não resistiu agora, por razões mais prosaicas, ao que parece derivadas das obras de restauro que vinha a sofrer há longos anos.

Nas redes sociais alguns têm minimizado o acontecimento, sugerindo que apenas ardeu parte de uma igreja católica. Outros vão mais longe e criticam o facto de terem surgido apoios financeiros vultuosos para a construção, quando há tanta gente a morrer de fome e mergulhada na pobreza por esse mundo fora. Embora respeitando a diversidade das opiniões quer-me parecer que nem toda a gente entendeu algumas coisas básicas.

Antes de mais, tal como na economia, as percepções e emoções são fundamentais em política. Não foi por acaso que uma multidão chocada permanecia ao longe a observar, impotente, a destruição daquele que talvez seja o maior símbolo de Paris e da França (mais do que a Torre Eiffel). Havia pessoas a chorar e logo mais a cantar uma canção de esperança. Não entender o que isto significa é não entender nada da alma das nações e da vida pública.

Por outro lado a Notre-Dame não era apenas um templo. Era o mais importante monumento nacional francês, o mais visitado da Europa, que carregava oito séculos de história e recebia mais de um milhão de visitantes por mês, tendo sido declarado pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade.

A imagem da queda do pináculo da catedral é soberba e provoca-nos algumas reflexões. Antes de mais ela simboliza a morte anunciada duma certa forma de religião institucional na Europa, cujo processo se iniciou no final da Grande Guerra, há cem anos. A ilusão do esperado progresso geométrico resultante da revolução industrial tinha sido posto em causa na guerra, quer pela aplicação da tecnologia conhecida em acções de destruição, durante o conflito, em particular pela utilização da ainda incipiente aviação e dos gases mortíferos, quer pelo rasto de dez milhões de mortos e vinte milhões de feridos. A situação da fé nos finais da guerra não era famosa, como atestava o relatório The Army and Religion (1919), que abordou o impacto religioso da vida militar sobre os soldados, principalmente os provenientes das classes operárias do exército britânico, tendo por base uma gama impressionante de testemunhos recolhidos durante os últimos tempos da guerra. O documento apresentou conclusões extremamente negativas. A religião europeia teve muita dificuldade em se reinventar a fim de lidar com as feridas duma guerra nunca vista e cedeu em toda a linha perante os regimes autoritários e ditatoriais que então se afirmaram no continente.

A queda do pináculo da Catedral de Notre-Dame faz-nos lembrar ainda a terceira tentação de Jesus no deserto, quando o diabo o desafiou astuciosamente a lançar-se do pináculo do templo de Jerusalém, para provar que era o Filho de Deus (Lucas 4:9). Mas o alvo do Filho de Deus não era provar o seu poder mas sim o seu amor.

A dicotomia entre pobreza e cultura é falaciosa porque muitas vezes a primeira decorre da falta da segunda. Ainda bem que há quem invista em educação e cultura. Ainda bem que há quem invista na luta contra a pobreza. A sensibilidade das pessoas é diferente e ambas merecem a atenção da sociedade. Mas criticar quem apoia a reconstrução de Notre-Dame em vez de mandar dinheiro para os países desenvolvidos, é tão descabido como nós apontarmos agora o dedo a esses mesmos críticos pelo facto de não oferecerem as suas casas, roupas, viaturas ou outros bens aos pobres que não os têm. Porém, Joaquim Franco pergunta aos cristãos: entre a reconstrução de um histórico edifício de culto e o apoio a um povo desolado pela intempérie, a enfrentar a fome e a doença, qual seria a prioridade daquele que, segundo os textos evangélicos, se comparou a um templo – “Derrubai este templo e em três dias o levantarei” (João 2: 9)?” De acordo. Só que não adianta exigir a observância da ética cristã a quem não tem vida de fé.

Mas Victor Hugo fez com que a catedral simbolizasse também a fantasia. Faço votos para que a catástrofe daquele final de tarde de 15 de Abril não seja a morte de Quasímodo. Isto é, a morte da fantasia de que todos precisamos para viver. Velhos e novos.

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José Brissos-Lino

José Brissos-Lino

Doutorado em Psicologia e Especialista em Ciência das Religiões; Diretor do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona; Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; Investigador do CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias – Universidade de Lisboa) e do CIPES (Centro de Investigação em Política, Economia e Sociedade – Universidade Lusófona). Desenvolve há muitos anos intensa atividade em instituições culturais, humanitárias e de solidariedade social, algumas das quais fundou.