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Canis Majoris

Opinião

Miguel Araújo

Em cada um de nós mora um pária imprestável, aproveitador de recursos naturais e intelectuais que o precedem, com a ideia de que a tudo tem direito, que tudo quanto alguma vez existiu lhe é devido

Uma explosão, a matéria em estilhaços disparada em todas as direções, um pequeno sedimento com água, entre biliões, amebas unicelulares a aventurarem-se terra adentro, tudo a misturar-se com tudo, a vida a desatar a desdobrar-se a ela própria, dinossauros, meteoritos, fazemos lá ideia de como será por lá por onde usamos chamar confins do universo, se arrancarmos agora em direção à constelação Canis Majoris à velocidade da luz, chegamos lá daqui a 4 892 anos e isto é uma constelação daquelas que a gente conhece, das que ficam aqui ao lado, outras há que nem com o pensamento lá chegamos, vão-se os dinossauros, descem macacos dos ramos e põem-se a olhar para as estrelas, e olha só para nós aqui de repente. Eu, por exemplo, estou agora num hotel em Bruxelas, vim de avião. Tudo é muito inacreditável, demasiado inacreditável. Diz o Álvaro de Campos que um orçamento é tão natural como uma árvore e que um parlamento é tão belo como uma borboleta. Todos nós que habitamos este planeta, membros do clube dos ainda vivos, nascemos num mundo maravilhoso e inimaginável onde existem automóveis, aviões, vacinas, água canalizada, guindastes, melatonina em gotas e livros do Fernando Pessoa, sem que nenhum de nós em particular tenha feito absolutamente nada para que todas estas conveniências milagrosas existam. Imagine-se ter de começar do zero a cada geração. Ter de tirar um dente recorrendo a qualquer que fosse o método a que os nossos companheiros de espécie recorriam em 1391. Ter de atravessar os Pirenéus a pé como os nossos antepassados portugueses de há 50 e 60 anos em busca daquilo a que, para a generalidade de nós, se encontra abrindo o frigorífico. Atrás de cada um de nós há toda uma cauda de acontecimentos em cadeia miraculosos que nos mima a existência facilitada, que remontam à tal explosão, pelo menos. E dentro de cada um de nós habita a ideia de que tudo nos é devido. Toda a biodiversidade que se espalhou a custo pelo planeta, todas as guerras, sangue derramado, as pragas do Egito, as provações de Jó, a padeira de Aljubarrota a correr espanhóis à paulada, a quantidade de vezes que o Thomas Edison há de ter dito à mulher já vou, já vou, só um minutinho, o que a pobre desgraçada há de ter sofrido, tudo, mas tudo, para culminar em cada um de nós, como se toda a existência tivesse como finalidade maior, finalidade última, a existência da nossa particular e individual insignificância. Em cada um de nós mora um pária imprestável, aproveitador de recursos naturais e intelectuais que o precedem, com a ideia de que a tudo tem direito, que tudo quanto alguma vez existiu lhe é devido. Em cada um de nós habita um indigente mimado que reclama de cada vez que um voo se atrasa dez minutos ou um autoclismo entope. Dentro de cada um de nós, em tal permitindo, mora um adolescente insuportável daqueles que ralham com a mãe, com aquele falsete grosso da mudança de voz. Cada um de nós, de cada vez que se prepara para sair de casa para se dirigir à Loja do Cidadão tratar daqueles trâmites, daquelas diligências que a nossa maravilhosa vida em sociedade permite, fá-lo com o desespero, a impaciência, o inconformismo alvoroçado de quem acaba de ser alistado à força para uma guerra. Caminhamos pelas filas dos aeroportos sem sequer um vislumbre de ponta da dignidade resignada dum Jesus Cristo de cruz às costas a avançar em direção a Gólgota. Buzinamos no trânsito e reclamamos com os empregados dos cafés. Devíamos viver em estado de graça e gratidão de cada vez que sentamos o traseiro ancho e preguiçoso num carro, como é que é possível tal milagre, uma máquina que me leva até Lisboa em duas horas e meia, as horas, as lágrimas, o suor, o sangue, os neurónios derramados em função deste prodígio sobre rodas para eu agora me agarrar à buzina derivado ao indigente da frente não ter dado pisca, como um cão que ladra contra o mundo.

(Crónica publicada na VISÃO 1362 de 11 de abri)

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