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O Brasil aqui tão perto - e para onde?

Opinião

José Carlos de Vasconcelos

NELSON ALMEIDA/ Getty Images

As relações Portugal-Brasil têm de ser independentes de quem ocupa o poder. Mas a atual situação brasileira levanta-lhes sérios problemas e graves obstáculos

É tão profunda a minha ligação afetiva ao Brasil que, não tendo a obrigação de escrever sobre as últimas eleições, optei por quase não o fazer, dado que face à situação aí vivida até me doía fazê-lo. Agora, porém, sinto-me “compelido” a voltar a falar aqui desse país cuja existência na espantosa unidade/identidade da sua vastidão, tendo e falando uma só língua, a nossa comum língua portuguesa, considero o que talvez mais nos devamos orgulhar de toda a nossa História. E sinto-o por uma triste mas poderosa razão: o Presidente Jair Bolsonaro, após um início de mandato em que, de par com a concretização de algumas das suas promessas ou ameaças, deu discretos sinais de as responsabilidades do cargo o poderem tornar um pouco mais moderado, agora chegou ao extremo de dar indicação para nos quartéis se comemorar – ou na posterior expressão, mais matizada, se assinalar – o 55º aniversário do golpe militar que derrubou o governo legítimo, matou a democracia, assassinou centenas e centenas de brasileiros. E etc.

Uma decisão à altura do então deputado que ao votar o impeachment da Presidente Dilma Rousseff deu um viva ao seu, dela, torturador, um dos mais sinistros torturadores da ditadura. Não sei o que dirá a próxima sondagem sobre a avaliação da sua ação pelos brasileiros. Agora, Bolsonaro tem já um nível de aprovação inferior ao dos seus três antecessores no mesmo período do primeiro mandato. Assim, tendo perdido 15 pontos desde janeiro, aquele índice, com bom ou ótimo, em meados de março era de 34%, contra os 41% de FHC, 51% de Lula e 56% de Dilma.

Na política externa, as visitas de Bolsonaro aos EUA de Trump, um seu ídolo e em parte modelo, e a Israel de Netanyahu dão ideia do que pretende e para onde vai. Aliás, o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Ernesto Araújo, é da ala ultra do seu Governo, para o qual foi indicado por Olavo de Carvalho, “guru” do ex-capitão, bem como dos seus três filhos, o 01, o 02 e o 03, e dos seus mais desvairados apoiantes. De Carvalho, hoje uma figura poderosíssima do Brasil, apesar de (além de tudo o resto, que é pior) há 14 anos viver nos EUA, Araújo tem perfilhado as estrambólicas teses, entre elas a de que o nazismo e o fascismo são “fenómenos de esquerda”!... Carvalho tem atacado até, violentamente, militares do Governo porque, única nota positiva no meio da desgraça, são eles os menos extremistas e os mais sensatos.

Sendo certo que as relações Portugal-Brasil e a fraternidade entre os povos devem ser, têm de ser, independentes de quem transitoriamente ocupa o poder, a atual situação brasileira não deixa de levantar sérios problemas à nossa diplomacia e graves obstáculos ao desejável desenvolvimento daquelas relações. Além de constituírem uma densa nuvem negra no horizonte próximo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, agora com condições para singrar, com a empenhada Presidência de Cabo Verde e de Jorge Carlos Fonseca, tendo como secretário-executivo o embaixador Francisco Ribeiro Teles e estando em Belém um Marcelo capaz de fazer pontes e de suscitar convergências afetivas com os seus homólogos da CPLP talvez como nenhum outro Presidente português (ler JL – Jornal de Letras, de 13 de março, dedicado ao tema).

José Carlos de Vasconcelos

José Carlos de Vasconcelos

Jornalista

Diretor do Jornal de Artes Letras e Ideias e coordenador do Gabinete Editoral da VISÃO