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Fascista é a tua tia!

Opinião

José Brissos-Lino

O ex-deputado brasileiro Jean Wyllys conversou com a VISÃO aquando da sua passagem por Portugal para participar numa série de conferências organizadas pelo Centro de Ciências Sociais da Universidade de Coimbra

MAURO PIMENTEL/Getty Images

Qualquer alma que se atreva a opor às ideias do extremismo político de esquerda tende a ser apelidado de fascista. O mesmo se pode dizer da direita, que chama comunista a tudo o que mexe. E assim se vai fazendo o branqueamento da verdadeira besta negra do fascismo

O controverso ex-deputado federal do Brasil, Jean Wyllys (PSOL-RJ) veio a Portugal a convite da Fundação Saramago. Boaventura Sousa Santos convidou-o para falar na Universidade de Coimbra, e o Bloco de Esquerda a reunir na Assembleia da República. Ficamos a saber que tanto Boaventura como Catarina Martins não acham mal que se cuspa na cara dos adversários políticos. Por muito menos do que isso os ministros João Soares (Cultura), Manuel Pinho (Economia) e Carlos Borrego (Ambiente) tiveram que abandonar diferentes governos de que faziam parte, chefiados por António Costa, José Sócrates e Cavaco Silva, respectivamente. Mas a este senhor tudo é permitido. Até a deselegância de vir a Portugal criticar o nosso Presidente da República por ter ido à posse do novo chefe de Estado do Brasil, em nome das nossas profundas ligações históricas. Até o desvario de afirmar que terá havido financiamento duma “campanha pérfida” contra ele, a partir de Portugal, mas sem apresentar provas, é claro.

O que realmente escandaliza qualquer ser pensante é o conjunto de falácias de que este indivíduo se alimenta. Desde logo Jean Wyllys diz-se perseguido por ser de esquerda, mas ele não parece ser de esquerda nem de direita, nem de centro, mas um espécime politicamente inclassificável que apenas está a colher o clima de ódio e provocação que andou a semear anos a fio. Ainda agora chamou canalha ao ministro da Justiça e ao Presidente do seu país, em entrevista à imprensa portuguesa. Quem não respeita não merece respeito.

Depois, Jean Wyllys diz que abandonou o Brasil e se exilou por causa de constantes ameaças de morte, mas a verdade é que prometeu em campanha que abandonaria o país caso Bolsonaro ganhasse as eleições – e não foi o único a fazê-lo –, portanto está apenas a cumprir uma promessa eleitoral e não pode ser criticado por isso. Mas talvez a verdadeira razão da saída pela porta baixa seja o facto de o eleitorado ter revelado profunda insatisfação com o seu desempenho parlamentar e político. Nas últimas eleições passou de 140 mil votos (2014) para cerca de 24 mil (2018). A votação miserável que obteve quase não o conseguia eleger.

Diz ele: “O que deu a vitória a Bolsonaro foi a homofobia.” Não. Bolsonaro ganhou devido à extrema corrupção, altíssima criminalidade, violência e insegurança, e graças a um eleitorado profundamente desiludido com a governação petista. Jean Wyllys diz também que é perseguido por ser homossexual. Na realidade há muitos homossexuais no Brasil, e mesmo no parlamento federal que não se queixam de perseguição. Em vez de defender os direitos dos homossexuais, ele só lhes perturba a luta, porque em vez de lhes defender os direitos exige privilégios, atacando e insultando feroz e repetidamente os adversários.

Jean Wyllys diz ainda que quer ter uma vida tranquila, mas em Portugal não parece possível. Custa a entender que um indivíduo que cuspiu na cara dum adversário político na Câmara dos Deputados, em Brasília, e passou a vida a enxovalhar os sentimentos religiosos de grande parte da população queira de facto paz e tranquilidade. O ex-deputado, que conseguiu alguma notoriedade no programa Big Brother Brasil (Rede Globo), manteve desde o início uma campanha de combate ao cristianismo. Publicou várias mensagens no Twitter onde chamava doentes, homofóbicos, preconceituosos, violentos, ignorantes e fanáticos aos cristãos, e propunha-se eliminar a influência da fé cristã na sociedade, o que provocou a indignação de muitos com as ofensas e os ataques à liberdade de expressão, religião e comunicação.

Diz também que os brasileiros que estão em Portugal são de “inclinação fascista” e que votaram Bolsonaro em “atitude incoerente e hipócrita”: E pergunta: “Isso é má-fé, burrice ou uma tentativa de vir para cá conspirar contra o governo português de esquerda?” A verdade é que se todos os brasileiros que votaram Bolsonaro são tendencialmente fascistas, então mais de 55,13% dos eleitores são protofascistas… E Jean Wyllys sabe que chamar “fascista” a alguém é crime no Brasil. Apetece dizer: “Fascista é a tua tia!” Esta não é uma forma inteligente de combater o que Bolsonaro personifica. Em vez de revelar frustração e ressentimento, o ex-deputado devia combater politicamente a nova governação, com base nas políticas concretas que vão sendo conhecidas, porque o país precisa de oposição inteligente e equilibrada como em qualquer democracia do mundo. Se precisa…

Toda a gente sabe que a população brasileira não é fascista nem comunista, mas alguma coisa a levou a votar em massa numa figura triste como Bolsonaro. O PT lulista (ainda não houve outro que não fosse lulista) e a esquerda radical deviam era pôr a mão na consciência e assumir que falharam redondamente e cometeram inaceitáveis abusos do poder. Além do mais, esta coisa de chamar fascista a quem pensa diferente é uma forma perigosa de branquear o neofascismo, essa besta negra que assoma um pouco por toda a parte.

José Brissos-Lino

José Brissos-Lino

Doutorado em Psicologia e Especialista em Ciência das Religiões; Diretor do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona; Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; Investigador do CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias – Universidade de Lisboa) e do CIPES (Centro de Investigação em Política, Economia e Sociedade – Universidade Lusófona). Desenvolve há muitos anos intensa atividade em instituições culturais, humanitárias e de solidariedade social, algumas das quais fundou.