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O sínodo contra a pedofilia soube a… poucochinho

Opinião

José Brissos-Lino

Vatican Pool

Avassalador, é o que se pode dizer do escândalo dos abusos sexuais perpetrados por sacerdotes católicos, dada a sua dimensão. Francisco convocou um sínodo para enfrentar a questão e comprometer as lideranças religiosas. Mas o resultado parece… poucochinho

Um problema desta gravidade pedia medidas drásticas e urgentes. Mas parece que a igreja católica (IC) não conseguiu chegar-se à frente como convinha. A história dos abusos vai-se fazendo a conta-gotas, revelação após revelação de escândalos, abuso sexual de meninos, de meninas e até de freiras, provocando um desgaste cada vez mais acentuado no catolicismo mundial. Aquilo que se sabia nuns casos e se suspeitava noutros, veio agora à luz, da forma mais crua possível. Hoje há bispos, sacerdotes e movimentos dentro da Igreja a exigir mudanças radicais (“foi um desapontamento e uma oportunidade perdida”), mas custa passar das declarações de intenção e dos pedidos de desculpa aos actos concretos.

Estamos a falar de crimes perpetrados por predadores sexuais vestidos de batina e investidos de autoridade religiosa e institucional. Tão ou mais grave do que um qualquer sacerdote abusar de menores na sua paróquia é o facto comprovado e recorrente de o seu bispo, tendo conhecimento do sucedido, não exercer qualquer tipo de sanção a não ser transferi-lo de paróquia, colocando em risco calculado as crianças do novo campo pastoral, tentando esconder os crimes, tornando-se assim cúmplice perante a lei e a consciência.

O relatório da investigação do grande júri liderado pelo procurador-geral da Pensilvânia, EUA, Josh Shapiro, que elencava mais de 300 padres acusados, e mais de mil vítimas, informava que durante largas décadas bispos e padres persuadiram as vítimas a não denunciarem os crimes e as autoridades a não investigarem. Em 2003, a diocese de Boston anunciou que iria pagar 85 milhões de dólares em indemnizações a 552 vítimas abusadas ao longo de três décadas. Essa investigação jornalística valeu um Pulitzer.

Portanto, não basta ao sumo pontífice ter adoptado uma postura inédita, ao condenar de forma veemente os crimes cometidos e ter reconhecido em carta aberta nas vésperas do sínodo que “nunca será suficiente o que se faça para pedir perdão e procurar reparar o dano causado”. É preciso ir mais longe. Segundo a opinião geral e de altos dignitários da IC neste momento os pedidos de desculpas não chegam. Nem as indemnizações. É preciso expor publicamente os criminosos e levá-los à justiça civil, caso os crimes não tenham prescrito. Mais. É preciso expulsar do sacerdócio e excomungar essa gente, seja quem for, independentemente do seu poder ou relevância na estrutura da igreja romana. As décadas de abusos sexuais impunes, nos recantos das sacristias, na sombra dos conventos e nas camaratas dos seminários de todo o mundo tem de acabar.

As “atrocidades”, como o papa Francisco classificou estes actos criminosos, estenderam-se da Irlanda aos Estados Unidos, do Chile à Austrália, Canadá, Áustria, Alemanha, França, Argentina, Espanha, Índia, etc, o que estabelece um padrão de comportamento sobre o qual importa reflectir. A lama atingiu até mesmo o cardinalato, como no caso do ex-arcebispo de Washington, o norte-americano Theodore McCarrick, 87 anos, que se demitiu quando, tendo sido abusador de crianças, alimentava agora um discurso contra a pedofilia, até que a verdade veio ao de cima.

O jornalista italiano Emiliano Fittipaldi publicou agora em livro (“Luxúria“) dezenas de documentos secretos que mostram como vários bispos e cardeais — incluindo alguns dos mais próximos colaboradores do Papa Francisco — ocultaram durante anos casos de pedofilia ocorridos nas suas dioceses, como o cardeal George Pell, que escreveu a uma das vítimas a oferecer dinheiro em troca do seu silêncio sobre o caso, ameaçando-a que, caso não aceitasse, a Igreja defender-se-ia em tribunal até às últimas consequências.

Embora não se possa estabelecer um nexo de causalidade entre celibato sacerdotal e pedofilia, a verdade é que os estudos mostram que os sacerdotes abusadores encetam normalmente o caminho dos comportamentos desviantes por volta da meia-idade, quando começam a sentir mais o peso da solidão e a ausência de afectos. Portanto, está claro que o tema do celibato deveria deixar de ser tabu, até porque não é dogma nem tem qualquer base bíblico-teológica. Trata-se apenas duma decisão historicamente tardia, que não escapa a interesses económicos. Deveria passar a ser facultativo, até porque em muitos casos propicia um comportamento hipócrita.

O tempo é de tomar medidas a sério para combater este crime que tanto mal anda a fazer à Igreja e a escandalizar milhões de católicos sinceros. É tempo de acabar com os paninhos quentes e começar a penalizar devidamente os infractores, os traidores do sacerdócio e, sobretudo, é tempo de tornar opcional o celibato, o qual, sendo obrigatório, revela-se contranatura em boa parte dos casos. Por mais voltas que se dê é aqui que vamos sempre parar. A vocação sacerdotal não equivale à vocação de eunuco. Como quem conhece a Bíblia sabe, o apóstolo Pedro era casado e, como bem dizia S. Paulo, mais vale casar-se do que abrasar-se: “Mas, se não podem conter-se, casem-se. Porque é melhor casar do que abrasar-se” (1 Coríntios 7:9).

José Brissos-Lino

José Brissos-Lino

Doutorado em Psicologia e Especialista em Ciência das Religiões; Diretor do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona; Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; Investigador do CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias – Universidade de Lisboa) e do CIPES (Centro de Investigação em Política, Economia e Sociedade – Universidade Lusófona). Desenvolve há muitos anos intensa atividade em instituições culturais, humanitárias e de solidariedade social, algumas das quais fundou.