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Angústias identitárias de um liberal

Dentro de mim palpita uma antipatia juvenil por uma sociedade beata, reacionária e marialva que, para o bem e para o mal, tenho a pretensão de conhecer bem

João Miguel Tavares é o meu cronista favorito. Fica feita a declaração de interesses. Não obstante, devo confessar que não acompanho o seu raciocínio sobre “o complexo salazarista que ainda paira na cabeça da direita-que-não-o-é” (Público, 19 de fevereiro de 2019).

A ideia de que é preciso ser-se corajoso para se assumir de direita terá, de facto, feito algum sentido nos gloriosos anos do PREC e nos anos que se lhe seguiram. Há 20 ou 30 anos. Mas é uma ideia sem qualquer aderência à realidade num país com várias formações políticas de direita, com órgãos de comunicação social assumida e saudavelmente de direita, com uma galáxia de comentadores de direita presentes, todos os dias, em todas as televisões.

É evidente que a ideia é sedutora para todos quantos gostam de acreditar que são uma corajosa minoria que saiu do armário com romântica valentia e que se imagina heroicamente acantonada e perseguida por opressores de uma esquerda toda-poderosa. Uma espécie de aldeia de Asterix ideológica. Feliz ou infelizmente, não bastam moinhos de vento para erigir heróis.

Coisa diferente seria dizer-se que se está a assistir a algum encurtamento censório do discurso público considerado admissível e que isso acontece sobretudo por pressão da esquerda. Que há cada vez mais palavras, frases, ideias que vão sendo banidas do espaço público. Primeiro, graças a uma leve sanção social, depois, graças a verdadeiros autos de fé no espaço público com as redes sociais a fazerem de multidões inquisidoras. Eis uma afirmação que eu teria subscrito. Mas não era essa a tese central de João Miguel Tavares, o tema – diferente do que aqui me traz – daria pano para mangas, e desviar-me-ia do essencial se por aí seguíssemos.

Regressemos, pois, à “direita”. Quer parecer-me que o problema que o João Miguel Tavares identifica encontra explicação noutro ponto. “Hélas”, sem qualquer coloração épica. Podemos de facto definir “direita”, como faz o João Miguel Tavares, por referência à clássica dicotomia liberdade/igualdade (duas ideias absolutamente irreconciliáveis que só os franceses querem defender em conjunto). Será então de direita quem tenha um palpitante apego pela liberdade individual, quem a queira ver tão irrestrita quanto possível. Quem acredite no mercado, na concorrência e na livre iniciativa. Quem, por oposição, receie os perigos dos igualitarismos planificados, quem tenha uma saudável desconfiança dos leviatãs estatais.

Pois bem, nessa aceção, e sem precisar de especial coragem ou espírito cavaleiresco, eu, por exemplo, dir-me-ia furiosamente de direita. Mais. Seria (sou) seguramente mais de direita do que o dr. Salazar do condicionamento industrial e dos planos de fomento.

Acontece que também se pode definir “direita” por referência à também clássica dicotomia conservador/progressista (o “liberal” no sentido americano). E é aí que começam os meus problemas com a “direita”. Tenho a maior das dificuldades em rever-me na “disposição conservadora” de Burke ou de Oakeshott. Não consigo ter um respeito semirreligioso pela tradição nem pela autoridade. Acredito mais no indivíduo do que na sociedade. E, para me deixar de intelectualidades, devo confessar que dentro de mim palpita uma antipatia juvenil por uma sociedade beata, reacionária e marialva que, para o bem e para o mal, tenho a pretensão de conhecer bem. Será isto a esquerda? Pois a ela regresso.

Em que ficamos? Se estiverem de acordo, por mim basta liberal.