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Os meus amigos

Opinião

Miguel Araújo

Desconfio das almas que se entregam às coisas moderadamente e misturo-me com as que se entregam às coisas demoradamente

Eu inclino-me para pessoas que demoram muito tempo no chuveiro. Tenho uma particular tendência para pessoas que têm uma particular tendência a nunca (mas nunca) ligar o ar condicionado do carro. Pendo para pessoas que pendem para o mar. Não sou capaz de conceber pessoas capazes de conceber viver por exemplo em Madrid. Prefiro gente que prefere a fome inclemente a sequer tocar numa delícia do mar ou numa salsicha. Hesito ante humanos que nem sequer hesitam ante a hipótese de se porem a dançar em festas. Desconfio das almas que se entregam às coisas moderadamente e misturo-me com as que se entregam às coisas demoradamente. Desgosto de pessoas que falam sobre futebol. Gosto se pessoas que, podendo, não falam. Não gosto daquelas pessoas que esticam o telemóvel e o espetam na cara do seu semelhante e dizem “vê só isto”. Eram precisamente essas pessoas que reenviavam vídeos e anedotas engraçadas no começo dos tempos, em emails que nos chegavam Fwd: fwd: fwd may contain virus fwd: fwd. Porque essas são as pessoas que tomam banho em dois minutos. São as pessoas que não gostam, não querem, não conseguem, nem sabem estar sozinhas. São esses que metem delícias do mar nos cozinhados. São esses que sustentam uma indústria que ainda é capaz de parir delícias do mar, caldos knorr e suissinhos. São esses, exércitos, batalhões, hordas desses que ligam o ar condicionado do carro. Que seriam capazes de morar em Madrid. Que preferem água de piscina a água do mar. Que nos mostram o vídeo quente do momento que viralizou hoje de manhã, espetam-nos o telemóvel na cara e dizem olha-me este gajo a cair de skate, são os que abrem a dança nos casamentos e no entanto são os primeiros a ir embora, porque “moderadamente”. São os que o Caetano e o Gil, genialmente, apelidaram das “pessoas na sala de jantar”. São os que nem sequer percebem que o melhor das festas passa- -se nas cozinhas, quando eles já se foram embora e o ambiente já se encontra esterilizado de impurezas e já só ficam os que demoram muito tempo (muito não: o que for preciso) no chuveiro, os que nem sequer abriram a boca durante o tempo “útil” da festa, os que passam muito tempo sozinhos, calados, sem dançar, sem comer delícias do mar, sem desperdiçar muito tempo longe do mar, sem ruminar vídeos de pessoas a cair de skate, quer dizer, no fundo, a germinar coisas de interesse para depois debater como deve ser numa marquise, com os que interessam. Os que demoram no banho. Os que não se lembram dos anos das pessoas, porque isso não interessa assim tanto, não existe qualquer espécie de mérito em ter nascido num dia específico, todos nós que aqui estamos nascemos num dia qualquer, se não fosse nesse era noutro, em última análise fazer anos não é digno de parabenização, não é mais um ano de vida, é menos um. Os que, no meu caso, calha de serem os meus pouquíssimos, raríssimos, verdadeiros amigos. Alguns conheci há 35 anos, outros há menos de um. Mas são meus amigos de infância, não importa se os conheci ontem. Não os vejo com regularidade, porque é gente que não valoriza assim tanto a convivência regular. É gente que nem entende sequer o conceito de ir tomar café. São os meus amigos e encontramo-nos quando calha, quase sempre tarde, quase sempre por acaso, mas sempre, sempre, na marquise de alguém.

(Crónica publicada na VISÃO 1352 de 31 de janeiro de 2019)