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Fundamentalismo, só o da Beleza

Opinião

José Brissos-Lino

"As muito feias que me perdoem/Mas beleza é fundamental. É preciso/Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso” escrevia Vinicius de Moraes no seu famoso poema “Receita de mulher”, em 1959. Fundamental é mesmo a Beleza. O resto resolve-se

Há algumas semanas tive a oportunidade de proferir uma conferência em evento académico sobre a história e essência do fundamentalismo protestante, por ocasião da passagem dos 140 anos do Credo de Niagara (1878), que deu origem ao movimento fundamentalista protestante e à sua “bíblia”, o documento “The Fundamentals”. A ocasião permitiu reflectir sobre o processo histórico, e no debate que se seguiu criou-se uma interessante oportunidade de partilha sobre a matéria.

Quando se fala em fundamentalismo religioso vem imediatamente à baila o caso das franjas radicalizadas do Islão que têm ocupado o espaço mediático de forma recorrente nos últimos anos. Mas não podemos esquecer que o fenómeno fundamentalista sempre esteve ligado a qualquer experiência religiosa, muitas vezes com violência, ao longo da História, e mesmo noutros âmbitos da vida colectiva, como o desportivo ou o político. De facto temos notícias de movimentações fundamentalistas no hinduísmo, no budismo e no judaísmo, mas também no cristianismo. Para não falar do fundamentalismo ateísta. Toca a todos.

No que respeita ao fundamentalismo protestante, parece ter surgido como resposta americana ao trabalho dos teólogos protestantes europeus do século XIX, com o alemão Friedrich Schleiermacher (1768-1834), que negava a autoridade da Bíblia e a historicidade dos milagres de Cristo. Mas também com Albrecht Ritschl (1822-1889), para quem a experiência individual valia mais que a revelação escrita. Ou Ernst Troeltsch (1865-1923), segundo o qual o cristianismo era apenas mais uma religião entre tantas outras, e Deus revelava-se em todas, embora o cristianismo tenha sido o cume da revelação.

A reacção do movimento fundamentalista protestante – uma coligação de líderes americanos, maioritariamente brancos e do Norte – ao liberalismo teológico era de carácter essencialmente doutrinário, e deu-se através da Niagara Bible Conference, da qual saiu o “Credo de Niagara” em 1878 e originou um século mais tarde a Declaração de Chicago. Em 1904 surgiu uma outra resposta na forma do movimento pentecostal, mas neste caso mais pela via do emocional e experiencial e menos pela elaboração teológica.

É curioso verificar que a declaração da inerrância bíblica foi inscrita no Credo de Niagara apenas seis anos depois de estabelecido o dogma da infalibilidade papal, de modo a fazer dela uma resposta ao dogma romano, trocando o primado do magistério pelo hermenêutico.

Provavelmente factores como a falta de uma organização central, a caricatura do fundamentalismo decorrente do julgamento de Scopes (1925), as divisões internas entre fundamentalistas, as preocupações com a Grande Depressão (década de 1930) e a Segunda Guerra Mundial reduziram a sua influência. O fundamentalismo protestante foi perdendo fulgor enquanto movimento, mas foi decisivo para o surgir do Evangelicalismo a partir dos anos 40, de teor mais moderado.

Entre o fundamentalismo e o liberalismo teológico há um lugar de equilíbrio. Esse lugar é o da Beleza. Seja na religião, no desporto ou na política. As atitudes radicais, de um extremo ou do outro, destroem a estética do fenómeno e a harmonia entre pessoas diferentes, que pensam de forma diversa. A resposta adequada à diferença não é a guerra mas o esforço de entender a outra parte. O mundo não é a preto e branco.

Aquilo que o poeta dizia da mulher – puxar pela sua feminilidade – aplica-se a tudo na vida. Vinicius acrescentou, num verso mais adiante: “No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso/ Que seja tudo belo e inesperado.” Também em matéria religiosa, o importante é que o nosso olhar esteja pronto para ver a beleza do que não conhecemos e disponível para nos deixarmos surpreender. É a Beleza que nos pode fazer trocar a guerra pelo amor. Até porque a fé cristã está saturada do conceito de Beleza: “Desde Sião, a perfeição da formosura, resplandeceu Deus” (Salmos 50:2). “Glória e majestade estão ante a sua face, força e formosura no seu santuário” (Salmos 96:6). Já no Novo Testamento, o clímax da beleza de Deus surge na pessoa de Cristo.

Sendo assim, não posso deixar de secundar a pergunta formulada em tempos por João Bénard da Costa1: “Haverá beleza separável do nosso profundo desejo de atingir outra coisa que nos faça ultrapassar a nossa própria dimensão e, atingindo-a, nos faça ser mais completamente?”

1 - Ciclo de conferências "Ecce Homo", Sé Patriarcal de Lisboa, 24.05.2007. In Vida Católica.

José Brissos-Lino

José Brissos-Lino

Doutorado em Psicologia e Especialista em Ciência das Religiões; Diretor do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona; Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; Investigador do CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias – Universidade de Lisboa) e do CIPES (Centro de Investigação em Política, Economia e Sociedade – Universidade Lusófona). Desenvolve há muitos anos intensa atividade em instituições culturais, humanitárias e de solidariedade social, algumas das quais fundou.