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E o Governo foi obrigado a mudar de discurso

Se a rua estiver calada, muita gente se convence de que há poucos problemas ou de que os problemas que sente são, afinal, só seus, mas tudo muda quando a rua se agiganta

Confrontado com o descontentamento que o crescente número de greves indicia, António Costa foi particularmente claro no Parlamento, dizendo, em tom de desabafo, que o crescimento da economia não pode criar a ilusão de que é possível dar de novo tudo a todos, que uma economia em crescimento não é, apesar de tudo, uma economia que torna tudo possível.

Não haveria grande novidade nessas palavras, que resultam das evidências de uma economia a crescer devagarinho, cada vez mais devagar. Mas elas dizem bastante do atual momento político, que se transformou quase subitamente à beira de começar o ano eleitoral e que inaugura uma fase política que António Costa dispensava, porque confiou que ela tardasse um pouco mais a chegar.

O relevante dessas palavras não está, pois, na irónica circunstância de ter António Costa, que prometia e vendia ilusões nos tempos de recessão, Troika, memorando e lixo, a reconhecer que, afinal de contas, o Governo é limitado pela realidade financeira e económica do País. Isso é irónico, diz muito sobre o primeiro-ministro, mas releva pouco para uma análise política do momento.
O que verdadeiramente releva é que o primeiro-ministro nunca teria dito estas palavras, saindo por completo do tom laudatório com que tem descrito a sua governação e o estado do País, se não tivesse tomado consciência de que esse discurso já não é bem percebido pela população.

Se pudesse continuar a dizer que a austeridade acabou, que não há cortes nem cativações, apenas reversões e devoluções, seria isso que António Costa estaria a fazer, como fez ao longo destes anos, negando qualquer evidência de desgaste ou de colapso nos serviços, recusando qualquer ideia de austeridade a recair sobre os mais vulneráveis.

Mas António Costa sabe que não pode continuar nesse registo, sob pena de o País lhe virar as costas. Não é possível dizer aos portugueses, que diariamente se confrontam com o evidente colapso nos transportes públicos ou com o flagrante desgaste do Serviço Nacional de Saúde, que está tudo bem, que está tudo melhor, sorrindo e acenando.

Isso durou alguns anos, e o Governo esperava que pudesse durar até às eleições, que as pessoas, iniciada a devolução de rendimentos, demorassem mais tempo a perceber os problemas causados pela opção do Governo de reduzir o investimento ao mínimo e de cativar a eito.

E talvez as pessoas demorassem mesmo mais tempo a perceber se não fossem os dramáticos incêndios do ano passado e o caso de Tancos. Não que estes dois acontecimentos tenham que ver com a questão, mas porque, enquanto falhanço do Estado, eles de alguma forma deixaram os portugueses mais atentos, mais despertos para a qualidade das funções do Estado.

A somar à sucessão de casos e problemas, está a pressão que o PCP decidiu começar a fazer, marcando o seu afastamento dos socialistas. Os protestos e as greves e as manifestações e o ruído social e da rua, que têm em muitos casos a mão do PCP, estão a tornar-se demasiado audíveis para serem ignorados pelas pessoas.

Porque há na rua um enorme poder de sugestão: se a rua estiver calada, muita gente se convence de que há poucos problemas ou de que os problemas que sente são, afinal, só seus, mas tudo muda quando a rua se agiganta – afinal há problemas, afinal não sou só eu, afinal isto não está bem.

E é essa a perceção que começa a vulgarizar-se, agora que os protestos enchem os noticiários, sobretudo no eleitorado que, durante estes anos, foi dando o benefício da dúvida ao Governo, apesar de desconfiar da grande esmola, da grande facilidade com que a austeridade fora arrumada. Para esses, muitos deles votantes na PàF, há um certo sabor a “bem me parecia”.

Nada disto vai abrandar neste ano. Pelo contrário, tudo se vai intensificar, obrigando o Governo a mudar de estratégia e de discurso, porque há muita coisa que não mais poderá ser assacada a Passos e a Portas: se a austeridade acabou, se houve devoluções, se há crescimento, se Centeno está na Europa a rogar por nós, por que razão há estes problemas?

E eis como, pela primeira vez de forma lapidar, e à conta da apressada realidade, o primeiro-ministro reconheceu que não há dinheiro para tudo, o que equivale a dizer que afinal há austeridade, que afinal não está tudo a melhorar, que afinal, querem lá ver?, o Governo não consegue cumprir com todas as expectativas.
E é com esta mudança de discurso, sem que algum dos problemas esteja na iminência de ser resolvido, com as elevadas expectativas a ficarem pelo caminho, que o Governo e os socialistas entram neste ano eleitoral.

Julgavam que ia ser fácil, mas não vai ser.

(Artigo publicado na VISÃO 1346, de 20 de dezembro de 2018)