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Banco de Populismo contra a Fome

O Presidente da República devia ter a erradicação da pobreza como leitmotiv do seu mandato. Não apenas como verbo ou atalho para que todos o encarem como igual ou para saciar a sua fome de eternizar o epíteto de superstar

Sem que eu e um sem-número de telespectadores quiséssemos, ficámos a saber. No sábado, o Presidente da República despendeu 222,39 euros (!) para contribuir para mais uma recolha do Banco Alimentar contra a Fome. Nos dois carrinhos de compras que Marcelo Rebelo de Sousa encheu havia de tudo: açúcar, água, arroz, azeite, batatas, conservas, leite, massas, óleo e sal. Vi eu e viu qualquer um que estivesse a fazer zapping na altura certa - a dos noticiários da hora de almoço.

Nada tenho a obstar à estratégia de Marcelo para atingir os 101% de popularidade. Em nada me indigna a tentativa de se assumir como um homem de afetos num País economicamente lacerado e socialmente desenlaçado. A solidariedade enquanto reflexo de amor pelo nosso semelhante é nobre e necessária; já a caridade e o assistencialismo como remendos de um Estado por cumprir e que a tantos falha revoltam-me.

Perante um batalhão de jornalistas, o Presidente quis recordar os portugueses que não basta que tenham sido pontualmente generosos. Precisam, pois, de continuar a sê-lo. Enquanto a rede pública não serve. Enquanto o emprego não chega. Enquanto o crescimento tarda. Enquanto a liberdade de tantos permanece condicionada à indigna escolha entre um pacote de leite e um medicamento inadiável.

A solução, assegurou Marcelo - que se qualificou como um privilegiado -, não é aquela que patrocinou. Meio milhão de portugueses sabem-no empiricamente. Esse meio milhão que exaspera por direitos, e não por esmolas. Esse meio milhão que quer a cana, e não o peixe.

O Presidente da República, mais do que qualquer outro responsável político, devia ter a erradicação da pobreza como leitmotiv do seu mandato. Não apenas como verbo ou atalho para que todos o encarem como igual ou para saciar a sua fome de eternizar o epíteto de superstar.

Lamento, um Chefe do Estado não é igual a mim ou ao caro leitor. Ao pretender aparecer nessas vestes nas milhentas selfies que lhe pedem ou nos incalculáveis planos de televisão, Marcelo transforma a causa em caso. E sujeita a necessidade de correção das assimetrias aos artifícios do gatekeeping. Quando nos interrogarmos acerca do populismo que grassa na Europa e no mundo, recordemo-nos de que ele já vai soprando por cá.

E permita-me, senhor Presidente, de ateu para católico: não foi a Bíblia que nos ensinou que, ao darmos esmola, a mão esquerda não precisa de saber o que faz a direita?