Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Casar à maluca

D.R.

Só quem anda muito distraído na vida é que estranha os programas de televisão que promovem casamentos cegos entre desconhecidos, a ver o que a coisa dá. E entretanto vão-se conquistando audiências

É sabido que os casamentos por amor são coisa de ontem, apenas, em termos históricos. Ao longo dos séculos os matrimónios sempre foram celebrados em nome de interesses sociais, políticos, diplomáticos e afins. O teatro e a ópera trouxeram à luz verdadeiras obras-primas de recorte dramático que espelhavam tal realidade. Que o diga Shakespeare com Romeu e Julieta, Verdi com a Aída, ou a mais arrebatadora história de amor lusitana, D. Pedro e Inês de Castro. O casamento romântico, o direito de escolher parceiro por amor é uma prática normalizada apenas nas últimas gerações.

De qualquer modo, a economia do acto matrimonial – que não se esgota no serviço religioso ou civil em si, e se estende desde o noivado à lua-de-mel, passando pela despedida de solteiro – foi sempre considerado no mundo ocidental como um rito de passagem socialmente estruturante e que deve envolver ambas as famílias e ser alargada aos amigos e colegas de trabalho. Nas sociedades mais tradicionais as bodas prolongam-se durante vários dias, por vezes uma semana inteira, e constituem um acontecimento social da maior relevância. A solenidade do serviço religioso implica um compromisso de vida (“até que a morte nos separe”) perante a comunidade e perante Deus. Pagavam-se dotes, isto é, valorizava-se a “perda” de um membro de uma família, que passava assim a enriquecer uma outra, pela pertença por via do casamento.

Mas no mundo ocidental os padrões de comportamento mudaram muito, em especial ao longo da segunda metade do século XX, porque a sociedade mudou, os papéis sociais masculino e feminino sofreram uma alteração radical, e até o serviço religioso faz-se quase só para a fotografia porque Deus se tornou descartável, face ao secularismo crescente. Como dizia Bauman as relações tornaram-se líquidas e por isso corremos o risco de estar a criar uma geração de idosos solitários, cada um a viver no seu canto. Alguém bastante idoso disse que, no seu tempo, quando um utensílio se estragava consertava-se, mas agora toda a gente o deita fora e compra um novo. O mesmo acontece com as relações, que não resistem a um capricho ou egoísmo pessoal sem pronta desistência. Qualquer dia os casais com quarenta ou cinquenta anos de casamento e vida em comum vão ter direito a estátua ou museu. Para eles a troca das alianças dava corpo e sentido ao seu símbolo intrínseco, a eternidade, representada pelo facto do anel não ter princípio nem fim.

Hoje a conjugalidade está transformada numa espécie de jogo de casino (“vamos casar para ver o que isto dá!”). Há casos de pais que se empenharam para pagar uma boda principesca – por pura vaidade ou afirmação social – e semanas ou meses depois, ainda antes de a acabarem de pagar, os noivos já estão separados. Este experimentalismo matrimonial revela-se nos casamentos pela internet, através de agências de casamentos que tentam conjugar supostas compatibilidades, como se as pessoas fossem peças de lego, e agora também por meio de programas de televisão do tipo casados à maluca, em que os noivos cometem a loucura de só se conhecerem no momento do acto civil de matrimónio.

Duma forma ou de outra as religiões procuraram estabelecer rituais de união com dois objectivos. Por um lado, que toda a comunidade soubesse que aquele homem e aquela mulher passavam a pertencer um ao outro, e comprometiam-se com uma vida em comum de respeito, mútua fidelidade e empenhados na propagação da espécie. Por outro lado, ambos firmavam tal compromisso perante a divindade, na presença dos seus representantes e de testemunhas, requerendo a bênção para o novo lar. Mas esta dupla responsabilidade foi-se perdendo ao longo dos tempos.

A verdade é que as mulheres ganharam autonomia durante a guerra. Foram para as fábricas produzir fardamento, armamento, munições e rações de combate, e no pós-guerra não quiseram voltar a ficar acantonadas na cozinha e a mudar fraldas. Fizeram elas muito bem. Ganharam autonomia, auto-estima, independência financeira e a pílula permitiu-lhes controlar as gravidezes e evitar encher-se de filhos sem querer, como até aí. Invadiram as universidades, as coutadas masculinas das profissões, da vida pública e foram conquistando igualdade de direitos. O marido perdeu a posição quase divina na família, de todo-poderoso e afirmou-se o diálogo, a partilha e a reformulação dos papéis sociais de cada um.

Escolher parceiro ou parceira para a vida por computador dificilmente funciona. Ao contrário do que pensava Sócrates (“o ideal no casamento é que a mulher seja cega e o homem surdo”) é preciso amor, paixão e uma constante atitude de concertação, centrando-se cada um não em si mesmo mas no outro, em nome dos dois. É o preço a pagar pelo sucesso na relação. Digo eu, que sou casado vai para 45 anos. Com a mesma mulher.