Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

O dentista

– Estás a ver esta tenaz? É canja: apontas o instrumento à boca, apanhas o que estiver a chatear, puxas para fora e acabam-se os incómodos. Se por acaso o doente protestar enfias-lhe o joelho nas costelas, que é como se faz lá em Portugal e aquilo cai-te logo na mãozinha que é uma beleza

Susa Monteiro

Durante bastante tempo colocaram-me numa companhia nas Terras do Fim do Mundo, junto à fronteira com a Zâmbia, num cu de Judas chamado Chiúme, o mais isolado, miserável e pobre que se pode imaginar, porque o MPLA entrava por ali Angola dentro na ideia de cercar o planalto do Huambo. Vivíamos em tendas e barracas quase sem população nenhuma em torno, apenas umas cinquenta ou sessenta pessoas ainda mais miseráveis que nós, com um soba velho que passava o tempo às voltas com uma máquina de costura pré-histórica, em pedaços, a tentar coser-nos os camuflados sempre com rasgões, que eu ajudava a compor entregando-lhe bocados de adesivo muito mais eficazes que o seu aparelho mirabolante, cuja agulha caprichosa furava tudo menos o que devia. Portanto éramos um bando de almas penadas

(quatro pelotões de atiradores)

mandadas conter os guerrilheiros numa agitação absurda e constante, e mais um morto aqui, e mais um morto acolá, mal alimentados, mal instalados, cheios de cansaço e revolta. De longe em longe o Comando enviava o capelão a amansar-nos a alma com umas missinhas, às vezes ao jantar

(jantar às seis horas porque quase noite já e, a seguir, chatices bélicas)

onde os quatro oficiais que éramos comiam quase merda numa quase cabana, o nosso vocabulário tornava-se mais pesado, às vezes tanto que eu aconselhava o padre

– Vá até lá fora um bocadinho que a conversa não está para saias

mandava-o recolher porque nunca se sabia quando a metralhadora deles, quando os morteiros deles, essas coisas assim que se usavam por aqueles sítios, começavam a existir num estalar de pipocas. Bom. As coisas iam andando, a coxear claro, até que os rapazes começaram a ter problemas com os dentes. As dores de dentes tão maçadoras, às vezes quase mais que um bocadinho, e o problema estava em que não havia dentista, mas como eu era um rapaz decidido resolvi a questão. Chamei um dos mecânicos

(os mecânicos eram tratados por Rodas)

mandei vir uma cadeira para o doente se sentar, um pedaço de lençol para o amarrarem à cadeira, uma tira no peito, outra na barriga, outra nos tornozelos a fim de evitar pontapés, uma última nos pulsos destinada a obviar possíveis azevias na pantufa, chamei o atirador com menos pontaria, expliquei-lhe

– Daqui em diante és dentista

entreguei-lhe uma turquês e proporcionei-lhe o curso após uma aula teórica densa e complexa:

– Estás a ver esta tenaz? É canja: apontas o instrumento à boca, apanhas o que estiver a chatear, puxas para fora e acabam-se os incómodos. Se por acaso o doente protestar enfias-lhe o joelho nas costelas, que é como se faz lá em Portugal e aquilo cai-te logo na mãozinha que é uma beleza.

Pedi uma bata velha a um maqueiro

– E andas com isto vestido porque a partir de agora és doutor

o Rodas, a partir daí, além de Rodas ficou doutor também e a tenaz tornou-se a sua companhia favorita. Só houve um problema: os restantes camaradas começaram a afastar-se dele mas as dores de dentes desataram a diminuir de forma considerável, para além do dentista se haver transformado de súbito num solitário porque, incompreensivelmente, os restantes heróis quase não lhe falavam, o que entristecia o doutor embora eu lhe aclarasse as meninges argumentando que a solidão era o destino dos génios mas que depois de defunto seria admiradíssimo, perspectiva que, não sei porquê, feitios, não me pareceu tê-lo alegrado muito. Quem o veio salvar da melancolia, na qual principiavam a notar-se impulsos suicidas, foi o capelão, enviado pelo Comando para nos encher a alma de Avé Marias libertadoras. O capelão, que desembarcou da avioneta agarrado à bochecha, disse-me logo

– Trago um problema num molar que não vejo nada
informei-o

– Descanse que daqui a dez minutos está porreirinho da Silva, tenho cá um dentista do caneco à sua espera.

Chamou-se o doutor, que veio de tenaz em punho, pedi ao capelão que se sentasse na cadeira, amarrámo-lo como um chouriço, solicitei com bons modos ao santo sacerdote

– Abra a boca e reze

solicitei ao Rodas

– E tu vê lá se me fazes isso como deve ser

o Rodas para o padre, cheio de delicadezas uma vez que os verdadeiros cientistas são uma joia de pessoas

– Abra a boca senhor prior

com o capelão a olhar-me aterrado, sem poder falar porque a tenaz lhe enchia a boca enquanto o dentista puxava, esmagando o joelho naquilo que, a pouco e pouco, ia deixando de ser o torax. Mas o facto é que o dente saiu. Não sei qual, espero que aquele que doía

(sou um homem de Fé)

mas saiu. Posso jurar, tive-o na mão. Só não percebo o motivo que fez com que o santo homem nunca mais nos aparecesse. Tornei a vê-lo ao mudarmos para a Baixa do Cassanje, mas não pude conversar com a bondosa criatura visto que desatou logo a fugir. É triste que haja pessoas mal agradecidas.

(Crónica publicada na VISÃO 1336, de 11 de outubro de 2018)