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José Manuel Pureza

Opinião

José Manuel Pureza

Professor Universitário. Deputado do Bloco de Esquerda

Bisbilhotices estalinistas

Quando a direita fala de bisbilhotice, quer sacralizar o uso e o abuso da iniciativa privada. Quando se escandaliza com o striptease salarial, quer deixar sem freios os ganhos dos empresários

"Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.”

Os grandes e os pequenos que o Padre António Vieira metaforizou como peixes estão aí. Em Portugal, em média, o salário de um administrador de uma empresa cotada no PSI 20 é 33 vezes superior ao de um trabalhador da empresa que ele administra. Uma vida de trabalho para chegar lá – sem nunca chegar porque o fosso caminha sempre à frente. Em grupos empresariais de grande nomeada entre nós, um trabalhador tem de trabalhar 345 anos para ganhar o mesmo que um administrador. Deve ser por isso que os ditos administradores têm tanto respeito da imprensa económica... Os administradores das empresas cotadas no PSI 20 saíram do período de resgate com um aumento salarial médio de 49,7%. Já os trabalhadores dessas empresas tiveram perdas médias de salário de 6,2%. Vemos os números da EDP, da Jerónimo Martins, da SONAE, da Mota-Engil ou dos CTT e a conclusão é sempre a mesma: quatrocentos anos depois de António Vieira ter denunciado que não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande, essa denúncia continua literalmente atual.

Limitar a dimensão do fosso salarial nas empresas é hoje uma aposta política prioritária em diferentes países. Na Suíça, foi a referendo uma proposta para colocar esse limite na relação 1/12. Em França, perdeu por um voto uma proposta parlamentar de fixar o limite na relação 1/20. Programas políticos de partidos com tradição de governo vêm incluindo propostas de limitação do pay-gap. E o assunto faz hoje parte do debate público em todo o lado.

Em Portugal, António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa juntam-se no adjetivo para qualificar o panorama português: chocante. Eu junto-me a eles: é mesmo chocante. E talvez fosse de começar por impedir que empresas assim, cuja prática de diferença salarial choca o Presidente da República e o primeiro-ministro – e, com eles, um País inteiro –, possam receber apoios ou benefícios fiscais e concorrer a concursos públicos até deixarem de chocar. Uma proposta recuada como esta só por mero jogo político terá merecido o voto contra do partido dirigido pelo chocado António Costa. Mas o jogo político passa e a causa obscena e funda fica, a causar natural choque ao primeiro-ministro, pelo que, mais cedo do que tarde, Portugal não deixará de tomar medidas fiscais e outras que travem o caminho a estas práticas e a esta cultura.

A isto responde a direita clamando que se trata de “bisbilhotices” na vida das empresas, que refletem uma visão “estalinista” da sociedade. “Striptease salarial”, gritam com incontida indignação. Para os mais incautos, assevero que não estou a inventar – foram estes mesmo os termos usados pelos partidos da direita no recente debate parlamentar sobre o tema. Mas reduzir esta reação a uma simples tolice não é avisado. Porque o problema não são os termos, é a ideologia que os anima. Quando a direita fala de bisbilhotice, quer sacralizar o uso e o abuso da iniciativa privada. Quando se escandaliza com o striptease salarial, quer deixar sem freios os ganhos dos empresários. Mas é a mesma direita que faz rodear a prestação do rendimento mínimo de requisitos, fiscalizações e erradicações a esmo. É a mesma direita que exige a quem ganha subsídio de desemprego que mostre que anda mesmo à procura de trabalho e que 
a ajuda do Estado vai acabar logo. As regras sobre os salários dos ricos são bisbilhotice sobre o mérito, as regras sobre os salários dos pobres são luta contra a fraude de madraços.

As bisbilhotices estalinistas do Padre António Vieira continuam a incomodar. Ainda bem.

(Artigo publicado na VISÃO 1335, de 4 de outubro de 2018)