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Valerio Adami

Sempre me espantou ver um pintor trabalhar: por mais agradáveis e pacíficos que sejam basta terem o pincel na mão para se transformarem numa espécie de hienas. A cara deles mete medo, os olhos ficam terríveis. Quando o Júlio, Júlio Pomar, me fez o retrato, estive para ali que tempos a posar enquanto ele avançava para a tela e se afastava, tornado um bicho terrível na iminência de me engolir inteiro

Susa Monteiro

A vez em que jantei melhor na vida foi na casa que pertenceu a Salvador Dalí, mesmo em frente do Sacré-Coeur em Paris, uma casa extraordinária com uma extraordinária vista para a igreja. Comi sentado numa espécie de sofá pequeno, com o prato nos joelhos

(havia bastante gente naquele jantar)

e um enorme quadro de Miró por cima da minha cabeça, uma tela magnífica mesmo para quem, como eu, não é grande admirador de Miró. A casa, aliás, estava cheia de quadros, todos eles excelentes, e eu ia olhando de boca aberta o que facilitava imenso a entrada do garfo na boca. Havia bastante gente eram quase todos artistas, pintores, escritores, etc. Sempre me espantou ver um pintor trabalhar: por mais agradáveis e pacíficos que sejam basta terem o pincel na mão para se transformarem numa espécie de hienas. A cara deles mete medo, os olhos ficam terríveis. Quando o Júlio, Júlio Pomar, me fez o retrato, estive para ali que tempos a posar enquanto ele avançava para a tela e se afastava, tornado um bicho terrível na iminência de me engolir inteiro. Acabado o quadro voltou a ser agradável e terno, mas enquanto me punha na tela

(e demorou que tempos a pôr-me na tela)

tive medo dele. E suava, suava, ele que não suava nunca, insultava-me

– Cabrão que és bonito demais

e não sei se corrigia o que estava a pintar ou me corrigia a mim, com um objecto tremendo na mão que tanto podia ser um pincel como uma faca. Inclino-me mais para a faca e às vezes, ao despir-me, penso que estou cheio de cicatrizes dos golpes com que o Júlio me rasgou. Nos momentos da criação os artistas tornam-se animais muito perigosos. Eu estava ali quietinho, a resmungar para dentro

– Agora sei o que é um antropófago

enquanto ele berrava

– Mexe-te

ele, tão pacífico sempre, e eu para ali, indefeso, completamente à mercê das garras daquele monstro. Por acaso sobrevivi ao suplício mas demorei um bom bocado até ser capaz de tornar a olhar para ele como para um amigo. E juro que nunca mais me sujeitarei a posar seja para quem for. Bom, mas estava a pensar na casa de Valerio Adami que pertencera a Dalí, nas telas estupendas em todas as paredes

(já nem falo no Miró)

nos pintores e escritores que lá jantavam, nas mulheres que em geral os acompanhavam, demasiado velhas ou demasiado novas mas quase todas atraentíssimas, trágicas e fatais, com a maquilhagem dos olhos tornando-as uma espécie de lagos carnívoros onde um homem se afogaria feliz, mastigado sem piedade por dentes perfeitos. Bom. Adiante. Eu gostava muito de Valerio Adami que me escreveu assim, por baixo de um desenho que me ofereceu

Para o António com amorzade

ou seja a mais bela dedicatória que alguma vez recebi. Valerio Adami, para além de grande pintor

(na minha pobre opinião)

é um homem encantador de simpatia e modéstia. Tinha muito sucesso, o que lhe permitiu, para além do apartamento em Paris, que deve ter custado um tomate, como diria o João, o meu irmão par, ser dono de um segundo em Monte Carlo e de um terceiro em Itália. No atelier de Paris estava a trabalhar numa tela enorme, deitada no chão, e eu a olhar para aquilo, encantado. Tenho imensa inveja dos pintores porque a gente pode ver o que estão a fazer, enquanto aquilo que eu faço são palavras em folhas de papel, logo escondidas pelas páginas seguintes. Não se tem uma visão do livro todo

(ainda por cima eu escrevo à mão)

enquanto com eles a gente acompanha

(no meu caso, maravilhado)

o processo inteiro. De modo que o via passear entre traços e cores, a construir emoções, a edificar sentimentos, a levantar-me a alma, tão atento ao seu trabalho que nem dava por mim. Eu gosto muito do trabalho porque sou capaz de estar horas a ver os outros trabalharem. Só não gosto é de ser eu a trabalhar porque me custa sangue, suor e lágrimas. Isto é de Churchill, claro, num dos seus primeiros discursos de guerra ao povo inglês: “Não tenho nada para oferecer a não ser sangue, suor e lágrimas.” E se não temos sangue, suor e lágrimas o espectador ou o leitor não fruem nada. Vocês, espectadores e leitores, alimentam-se do nosso sofrimento, um sofrimento esquisito porque, às vezes, está cheio de uma espécie de alegria triunfal e eu via isso na cara e nos movimentos do Valerio. O Zé para mim

– É preciso que a gente passe as passas do Algarve para que o leitor tenha prazer.

É muito estranha a mistura de sentimentos com que um artista trabalha. Com amorzade também, a tal amorzade da dedicatória do Valerio. O modo como ele olhava o quadro, o modo como passeava nele, mudando-o, transformando-o, aperfeiçoando. É preciso amar os artistas, compreender que, finalmente, são eles que têm razão. O meu pai dizia que a coisa mais importante, a única coisa importante que queria deixar aos filhos era precisamente isso: o amor das coisas belas, a única justificação da nossa passagem pelo mundo. Temos de amar os artistas e aprender que, finalmente, têm sempre razão.

(Crónica publicada na VISÃO 1333, de 20 de setembro de 2018)