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Comunicar Ciência: a mudança dos tempos e das vontades

Opinião de Miguel Castanho, Professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa

Muito mudou na forma de olharmos a Ciência com o início do século XXI. À medida que o mundo se ia tornando mais mediático e o audiovisual - a par com as redes sociais - ia tomando conta da forma como comunicamos, os cientistas foram ganhando consciência da necessidade de fazer parte desse mundo. Estava em causa, sobretudo, assegurar uma efetiva contribuição da Ciência no progresso social, quer divulgando conhecimento científico, quer advogando o valor da decisão ponderada e transparente baseada em factos, inerente à própria Ciência. A Política, em particular, no exercício de governação, ganha com esta forma de ser e é tão mais útil e benéfica a um país quanto mais for exercida com decisões sérias, escrutináveis e sustentadas em factos e estudos credíveis e bem elaborados.

Em Portugal a comunicação e divulgação da cultura científica, isto é, da forma como se faz investigação científica e do que dela resulta, consolidou-se por dois fatores fundamentais que coincidiram no tempo. Por um lado, no final dos anos 90’s foi criada a Associação Ciência Viva com a missão de edificar e catalisar uma ampla gama de atividades interdisciplinares ligando Ciência, Cultura, Artes e Comunicação, dirigidas a públicos generalistas. Por outro lado, em paralelo, foi também ao virar do século que a expansão do ensino superior se cruzou em contramão com a regressão demográfica da população jovem - o número de candidatos a vagas nas universidades passou a ser menor que o número de vagas disponíveis e alguns cursos chegaram mesmo ao ponto de não ter qualquer aluno. O desafio para universidades e institutos politécnicos era novo: ou aprendiam rapidamente a arte de comunicar para cativar alunos ou sucumbiam perante o vácuo de ter professores a dar aulas para salas vazias. Um pouco por todo o país as faculdades e centros de investigação académicos criaram Gabinetes de Comunicação. Aos poucos, da globalidade destes novos contextos, emergiu um novo domínio profissional: a Comunicação de Ciência.

Aproveitando ventos favoráveis da Comissão Europeia, muito empenhada em apoiar a aproximação entre Ciência e Sociedade, comunicadores de ciência, por um lado, e jornalistas de ciência, por outro, criaram pontes entre si e a Ciência e a cultura científica made in Portugal têm hoje uma visibilidade e um tratamento profissionalizado que está a anos-luz das titubeantes iniciativas do início do século.

Em contraste com a atividade fértil e em crescendo dos gabinetes de comunicação académicos em faculdades e institutos de investigação, a Associação Ciência Viva foi perdendo gás com o tempo, não foi renovando lideranças e não tem cumprido a promessa para que foi criada, pautando a atuação estatal em comunicação de ciência pela estagnação e pelo anacronismo. A Rede de Centros Ciência Viva está desestruturada e não tem consistência. Ao contrário do que o nome sugere, não tem a verdadeira orgânica de uma rede; é um conjunto de instituições díspares, dispersas e mal ligadas. A maioria dos Centros Ciência Viva depende de apertados orçamentos locais, sobretudo camarários. O subsídio concedido pela FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia) à Associação Ciência Viva pouca capilaridade tem desde Lisboa até outras zonas do país. E assim se esgota o apoio nacional: em vez de um sistema competitivo e meritocrático de distribuição de recursos, temos uma política de subsídios praticamente monopolizada numa instituição central. Este sistema, pouco escrutinado e de natureza clientelar, é um claro entrave ao desenvolvimento do setor. Portugal, com os seus cientistas e os seus profissionais de comunicação, está maduro para que universidades, centros e institutos de investigação, órgãos de comunicação social, agentes culturais e artísticos, museus, centros Ciência Viva e outras organizações de divulgação de ciência e quem mais

demonstre capacidade e mérito, se possam associar e concorrer a financiamento para propor e executar projetos inovadores e de qualidade para comunicar ciência e divulgar a cultura científica. Falta apenas quem tenha coragem para transformar subsídios statu quo em financiamentos acessíveis por concursos transparentes e ao alcance de todos os investigadores e comunicadores.