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Contra o “falabaratismo”

Na política como no futebol o “falabaratismo” e o ruído são cada vez mais difundidos, a ponderação e o silêncio cada vez menos respeitados, o “defeso” cada vez mais curto

Na política como no futebol o falabaratismo e o ruído são cada vez mais difundidos, a ponderação e o silêncio cada vez menos respeitados, o “defeso” cada vez mais curto. Mesmo assim ainda há políticos que para atacarem os adversários, e comentadores que para o mesmo efeito ou por não terem mais nada a dizer, acham que alguns deviam falar ainda mais, se na oposição atacar ainda mais, e sempre, os do Governo – sem sequer fazer férias, embora as férias sejam um direito, até indisponível, de quem trabalha.

O último exemplo de tal realidade está nas veementes críticas internas a Rui Rio por ter estado duas ou três semanas ausente. Por não ter ido a Monchique e outros locais para aparecer nas televisões que à falta de imaginação, competência ou recursos fazem da propaganda e das agendas dos líderes partidários matérias constantes dos seus noticiários, péssima prática, que julgo sem paralelo em países de democracia consolidada.

Mas Rio voltou e disse coisas pertinentes, como a conveniência de o País não entrar já em “espírito eleitoral”, marcando uma certa diferença em relação ao perfil dominante dos políticos. Será esta, aliás, a melhor ou única via para o PSD recuperar algo do muitíssimo que perdeu, como se viu nas autárquicas, com a forma radical e agressiva de Passos Coelho fazer oposição. 
O surpreendente é haver quem no partido o não perceba, ou faça de conta não perceber: o que só se explica pela marca e pelos discípulos que o anterior líder deixou, ainda dominantes em várias estruturas e com medo de virem a perder os lugares. Rio disse também, no entanto, que o PSD só não ganhará as próximas eleições se não quiser, o que sobre não ser exato só se pode virar contra si. Vai o PS, pôs a sua porta-voz a responder-lhe. Mal, ou desnecessariamente: é tempo de fazer política de outra maneira.

2. Já aqui escrevi (VISÃO 1327, de 
9 de agosto) o que penso sobre o novo partido velho que Santana Lopes está a constituir. Com um nome, Aliança, que mais do que de partido parece de coligação, deixando implícita a palavra Democrática, para “lembrar” a antiga AD. Perante a incoerência e o sem sentido do seu abandono do PSD, face a tudo o que disse e fez em especial nestes últimos meses, eu sublinhava só ser isso possível com quem ao longo de mais de 40 anos de carreira política mostrou com ele tudo ser possível... Poucas semanas depois, já a recolher assinaturas para a sua formalização, e afirmando Santana que com muito boa recetividade, só quero aqui acrescentar que o – ou a – Aliança tem pelo menos uma rara originalidade, duvido é que boa. Qual? Ser um projeto de partido absolutamente unipessoal!

Julgo que não deve ter havido nunca, em nenhuma parte (eu pelo menos não conheço) um partido tão badalado, com a sua orientação e princípios fundamentais definidos, a angariar apoiantes, etc., e de que se conheça uma só pessoa! Uma só: o “fundador”, como se fosse o “dono”. O único também, até agora, que se saiba, a sair do "PPD/PSD", que em outros tempos teve saídas maciças e de dirigentes de topo, de Mota Pinto e Emídio Guerreiro a Magalhães Mota, Sousa Franco, Jorge Miranda, Sérvulo Correia, etc. Só deputados foram 36, que em 1980 formaram a ASDI. Agora, é Santana.

(Artigo publicado na VISÃO 1331, de 6 de setembro de 2018)