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Três sessões de surf em Cabo Verde

Estava no pico existencial da minha forma física e nunca me terei sentido tão perto da imortalidade como nessa tarde de ondas grandes na ilha de Santiago

É a terceira vez que venho a Cabo Verde e em todas houve uma expectativa: a de poder surfar. Não é um destino óbvio para o surf. No Inverno, quando as ondulações adequadas chegam do Atlântico Norte, há vento a mais. No Verão, acalma o vento mas o mar também. Poder surfar em Cabo Verde verifica--se numa pequena janela de conjugação de factores climatéricos e oceânicos e, feitas as contas, a sorte conta mais do que as previsões do estado do mar.

A primeira vez foi em 1991. Quase ninguém sabia se havia surf em Cabo Verde, era um segredo bem guardado pelos poucos que já tinham explorado o arquipélago. Ainda hoje me interrogo se terei sido eu a inaugurar aquela onda perigosa e difícil numa baía isolada em Santiago - essa onda agora é conhecida como Danger Point, mas na altura era um verdadeiro secret spot, uma onda secreta que guardei em segredo pelos anos seguintes. Surfei de tarde, com uma luminosidade calma e suave à minha volta, eu totalmente sozinho dentro de água, o hospital mais próximo não existia sequer, 
e a contradição entre a iminência de um acidente e a leveza espiritual é ainda hoje inexplicável. É verdade que eu tinha 23 anos e corria riscos sem pensar nas consequências; hoje até um café depois das quatro da tarde me faz hesitar pela possibilidade de uma insónia. Atirei-me a ondas que hoje já não teria a coragem de abordar. 
Mas estava no pico existencial da minha forma física e nunca me terei sentido tão perto da imortalidade como nessa tarde de ondas grandes na ilha de Santiago.

A segunda vez foi na ilha do Sal, recentemente. Cabo Verde tornara-se entretanto uma das mecas do kite e do windsurf e eu regressei na temporada alta do vento. Por isso, as ondas, batidas pelos alísios, não estavam nas melhores condições para o surf. Por outro lado, o meu destino desta vez não era uma obscura porção de uma ilha sem tradição de desportos aquáticos, mas sim a mundialmente famosa onda da Ponta Preta. A multidão de praticantes na água 
a competir pelas ondas tornou a minha experiência frustrante 
e ingrata.

Regresso agora para a terceira viagem. A sorte viaja comigo, outra vez. As previsões indicam ondas grandes, sem vento. O filho de um amigo de um amigo, um miúdo de 23 anos, aceita, por deferência para com este cordão de contactos, levar-me a fazer surf numa onda que poucos conhecem, um secret spot. Avisa-me no dia anterior que para onde vamos não há nada, a viagem demora hora e meia por estradas de cascalho, teremos de levar toda a comida e água necessárias. Penso por instantes que o hospital mais próximo não existe, depois sacudo o pensamento. O plano é sair de madrugada, passar o dia todo a fazer surf, regressar ao pôr-do-sol. Hesito, sei que já não aguento “passar o dia todo” a fazer surf. Em 1991 tinha 
23 anos, agora tenho 50. Será que quero mesmo ir com ele? Aguento quanto? Duas horas no máximo? E depois, o que faço no resto do dia? Sem sombra, sem alternativa, sem energia, a olhar impotente para ele e para os seus amigos, todos no vigor dos 23 anos, a surfar 
o dia todo.

As ondas estão de sonho. Grandes. Sem vento. Translúcidas. Quentes. São as melhores que encontrei nos últimos anos. E sabe-se
lá as melhores dos próximos anos, também. Espicaçado pelo entusiasmo dos meus companheiros, lá me vou aguentando ao longo do dia e acabo por surfar bem mais do que o meu habitual limite de duas horas. Sei que esta sessão de surf ficará na memória como uma das mais intensas e transcendentais da minha vida. De novo em Cabo Verde. O leitor estará a pensar: esqueceu-se de mencionar em que ilha se situa esta onda de sonho. Pois foi, esqueci-me….

(Crónica publicada na VISÃo 1330, de 30 de agosto de 2018)