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Trump, os jornais e o perigo dos unanimismos

Ameaçados pela crise estrutural que atravessam e acossados pela agressividade primária de Trump, os jornais escolheram a via errada para defender a justa causa da 
liberdade de imprensa

Parafraseando (e mal) a Constituição Americana, julgo que há duas verdades que muitos de nós consideram “autoevidentes”. A primeira é que Donald Trump é, muito provavelmente, o pior e mais perigoso Presidente dos Estados Unidos da América de todos os tempos. O seu ódio à verdade, a sua aversão ao multilateralismo, a sua visão transacional do mundo e da política, a sua ignorância profunda e a sua amoralidade patológica criaram um novo paradigma na política caseira e nas relações internacionais que lhe vão sobreviver muitos e maus anos. 
A segunda é que a liberdade de expressão e a existência de uma imprensa livre são o fundamento de qualquer democracia substantiva. É evidente que, em teoria, podemos ter uma democracia a funcionar em pleno respeito por todas as regras processuais sem uma imprensa livre. Mas essa seria uma forma fraca de democracia, uma democracia meramente formal. Com um eleitorado mal informado, ou até deliberadamente desinformado, só dificilmente podemos sustentar que as escolhas eleitorais são realmente livres. Para o serem, para que a democracia se faça substantiva, a existência de uma cidadania informada é um requisito fundamental. E para que este se cumpra, não conheço melhor instrumento do que um sistema mediático vibrante, profissional e plural.

Ora, estas duas verdades “autoevidentes” deviam levar-nos a aplaudir sem reservas a iniciativa generosa que, sob a liderança do Boston Globe, levou mais de três centenas de jornais norte-americanos a publicar, no mesmo dia, editoriais que denunciam as invetivas grosseiras de Trump contra os média e os seus ataques à liberdade de expressão. Acontece que não partilho deste entusiasmo que é, reconheço, largamente maioritário. Explico porquê.
A iniciativa é tão generosa quanto contraproducente por duas razões. Antes de mais é perigoso que a imprensa americana se acantone numa cruzada anti-Trump. Uma coisa é defender a liberdade de expressão, outra é a adesão incondicional ao combate ao Presidente. Paradoxalmente, esse seria um grande serviço à causa deste último. Porque é essa, precisamente, 
a tese mirabolante que tem defendido: a de que existiria uma cruzada mediática contra a sua presidência.
Mas a objeção de fundo nem é essa. A questão fundamental é que é muito perigoso que a imprensa se una, de forma concertada, em torno de qualquer unanimismo. Se defendo com todo o entusiasmo e sem qualquer reserva uma imprensa livre e uma radical liberdade de expressão (radicalidade que, de resto, está cada vez mais ameaçada pelas convenções linguísticas do politicamente correto), é porque pressuponho que defendo um sistema plural onde se combatem, à luz do dia, no plano da racionalidade, ideias contraditórias e argumentos conflituantes. Porque pressuponho que o sistema mediático me expõe, no seu todo, a teses diferentes e a agendas opostas. No dia em que a imprensa se unir, concertada, em torno de uma causa (por mais generosa e óbvia que nos possa parecer), estará a destruir todos os fundamentos que nos impelem – a nós, perigosos liberais – a defendê-la contra tudo e contra todos. A imprensa não se quer como poder nem sequer como contrapoder. Não se quer una e muito menos se quer monolítica e unanimista. A sua força, a sua razão de ser, o seu contributo para uma sociedade livre, assentam, precisamente, na sua pluralidade interna.

Os Estados Unidos da América podem orgulhar-se de ter alguns dos melhores e mais profissionais jornais do Mundo. Mas, ameaçados pela crise estrutural que atravessam e acossados pela agressividade primária de Trump, escolheram a via errada para defender a justa causa da 
liberdade de imprensa.

(Artigo publicado na VISÃO 1330, de 30 de agosto de 2018)