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José Manuel Pureza

Opinião

José Manuel Pureza

Professor Universitário. Deputado do Bloco de Esquerda

Jesus e Marx dialogam

Cristãos e esquerdas marxistas estão mais apetrechados do que ninguém para conjugar o primado dos direitos e da dignidade com o resgate da memória da opressão

Nestes primeiros dias de setembro, uma plataforma de diálogo entre o Vaticano e a esquerda marxista europeia organiza em Ermoupoli, na Grécia, uma universidade de verão sobre “A Europa como bem comum”.

O diálogo entre marxistas e cristãos ganha hoje uma acuidade redobrada, diante da desumanidade atual para com os pobres, os precários, os refugiados e as vítimas de abusos de toda a ordem – a começar pelos cometidos pelos dignitários eclesiais – e da desumanidade atual projetada num futuro cada vez mais próximo que é a injustiça ambiental potenciada pelas alterações climáticas. É esse imperativo de ler o mundo a partir da realidade dos pobres e do cuidado para com a criação que constitui um desafio irrecusável à aproximação entre cristãos e as esquerdas marxistas.

É significativo que o ponto de convergência temática encontrado por cristãos e marxistas seja a Europa. A realidade europeia está atravessada por contradições profundas que desafiam a um tempo a reflexão e a ação de cristãos e de marxistas. São contradições de quatro tipos. 
A primeira é entre o património de civilização e o legado de incivilidade: a Europa do cristianismo, das luzes, dos direitos, do Estado Providência cresceu colonizando, escravizando, espoliando, racializando. Cristãos e esquerdas marxistas estão mais apetrechados do que ninguém para conjugar o primado dos direitos e da dignidade com o resgate da memória da opressão. 
A segunda contradição é entre a riqueza da diversidade e as pulsões uniformizadoras: a diversidade política, cultural, religiosa, étnica, de modos de produção foi sempre a grande riqueza da Europa; algo que a xenofobia ataca culturalmente, a ortodoxia austeritária ataca economicamente e a fixação europeísta no “único” (“mercado único”, “moeda única”) ataca politicamente. Cristãos e esquerdas marxistas, porque têm a diversidade no âmago das suas trajetórias históricas, têm condições particulares de valorização do plural e de resistência ao unicitário. 
A terceira contradição é entre liberdade de movimento e enclausuramento: o melhor humanismo da Europa do presente – a segurança social – e o seu tesouro político – a democracia – atrairão aqueles tantos que, lá onde vivem, não contam com mais do que a providência da rede familiar mais ou menos alargada e com tecituras políticas autoritárias; o fechamento das fronteiras, com ou sem muros, e a hostilização dos imigrantes, não só no discurso político mas nas práticas sociais mais disseminadas, fecham a Europa ao exterior e, quanto maior é esse fechamento, maior é a securitização dos movimentos cá dentro. Cristãos e esquerdas marxistas têm a responsabilidade de, neste quadro, dar corpo à conjugação do princípio cristão do destino universal dos bens com o postulado marxista da solidariedade internacionalista. Finalmente, a quarta contradição é entre a realidade da Europa e a representação que dela fazem os europeus. Há muito que a Europa deixou de ser o centro da riqueza do mundo (se há um centro algures nas Ásias ou se deixou pura e simplesmente de haver centro é algo que não tem relevância de maior para o caso); mas a persistência da colonialidade do discurso e do pensamento dominantes na Europa, por um lado, e as políticas de empobrecimento interno, por outro, mostram como os europeus vivem na nostalgia ou na ânsia do eurocentrismo como gramática do mundo.

Escreveu há dias Eduardo Lourenço que “a exigência religiosa específica do cristianismo é ser crítica radical do poder pelo amor dos outros e, mais radicalmente, crítica de um Deus-poder”. É nesse espaço de crítica radical dos poderes que os cristãos e as esquerdas marxistas têm de se encontrar. Para criarem pensamento e ação política que afirmem o primado dos direitos de todos, 
o primado da conservação do planeta como casa 
comum partilhada justamente por todos, o primado da responsabilidade de todos por todos, o primado da pluralidade e do acolhimento do outro e, acima de tudo, o primado da transformação social em favor dos pobres e excluídos. Esse encontro terá inimigos. Cristãos e esquerdas marxistas estão habituados 
a isso.

(Artigo publicado na VISÃO 1330, de 30 de agosto de 2018)