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Nova música portuguesa

A minha música não é nova. É velha. Mas julgo-a tão viva como uma língua que se fala há centenas de anos

A minha música não é nova nem é portuguesa. Não é nova porque o instrumento através do qual eu me exprimo não é novo. É a guitarra. A origem deste instrumento andará na Idade Média mas não é possível de determinar, porque as coisas não nascem, fundem-se umas nas outras. Mas esta guitarra, a que eu toco, deixou de ser inovada há 40 anos.

Pessoas como o Van Halen foram os últimos dos inovadores porque, além de uma vontade de inovar o instrumento que vinha de dentro, tinham a tecnologia do lado deles, como motor criativo paralelo. O Van Halen ia para as fábricas exigir ferramentas novas. Mas a indústria abdicou de inovar desde essa altura.

Não existem modelos novos desde esse tempo. A guitarra é o instrumento do rock and roll e esse estilo deixou de apresentar novidade desde o metal dos anos 80. As Washburn Spitfire, as Jackson, as B.C. Rich, etc., foram os últimos modelos novos. Nunca mais foi apresentado nada de novo. O rock dos anos 90 é revivalista, foi aí que começou a sua autofagia, que se alastrou até à tecnologia. Mas isso não me aflige. Para mim, a guitarra é um mero instrumento. Um meio que me permite aceder às melodias que cantam dentro de mim.

A minha paixão é essa. Não é a de inovar coisa nenhuma. No meu último disco, rodeei-me de instrumentos de outros séculos. A guitarra clássica, o contrabaixo, o piano e o violoncelo são o coração dessas músicas. Significa que estou a fazer música do séc. XVIII? Olho para os instrumentos quase como quem olha para um eletrodoméstico e acho que amá-los como fim em si é quase provinciano, é como ir andar de escadas rolantes por andar, como fim em si.

Acho que este complexo de inovar por inovar será até um dia visto como algo meio pacóvio, uma neura deste tempo em que o conceito de tempo ganhou pela primeira vez uma elasticidade, uma sinuosidade como nunca antes se viu. Um tempo que não é novo é a grande novidade deste tempo (uma gravação do Robert Johnson de 1936 que apareça agora pela primeira vez é tão ou mais novidade do que uma canção nova da Adele). A minha música, mais do que fazer referência a músicas de outros tempos, presta reverência. Uma reverência natural.

A minha música olha de baixo para cima para a música intemporal onde se formou e acena-lhe com deferência, duma maneira automática, anterior a qualquer decisão estética da minha parte. Ambiciono que a minha expressão musical tenha a naturalidade de um sotaque, que é algo que, quando parte de uma qualquer escolha, resulta sempre patético. Quem opta por um determinado sotaque, quase sempre procurando encobrir o seu de raiz, incorre sempre no ridículo. Primeiro, porque não consegue, depois porque é uma coisa pacóvia. O desafio é uma pessoa reconhecer-se e aceitar-se tal como é, e não como presunçosamente acha que poderia, deveria ou quereria ser.

A minha música não é nova. É velha. Mas julgo-a tão viva como uma língua que se fala há centenas de anos. Que se autorregenera discretamente e nunca por decreto ou decisão. É a língua da canção, que anda por aí vadia há tempos imemoriais. É renovada por incidências e agentes vários, que muito provavelmente não procuram renovação nenhuma. E a minha música também não é portuguesa. Umas calças de ganga feitas em Portugal podem ser consideradas “vestuário português”? A ganga vem de França, foi levada por um judeu alemão para a América para vestir garimpeiros e caubóis. Os jeans são americanos? São franceses? São alemães? São do mundo, tal como a música que se impregnou em mim de uma forma natural e fecundou a minha criatividade de uma forma que desdenha fronteiras e vem dos jograis europeus da Idade Média, passa por Nashville e Liverpool e pousa como a andorinha que sobrevoa continentes e faz ninho num poste de eletricidade em Grândola, sem ter conhecimento das fronteiras que atravessou sem apresentar cartão.

(Crónica publicada na VISÃO 1329, de 28 de agosto de 2018)