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Trump, um novo líder de culto?

Parece que os fundamentalistas cristãos americanos estarão a desenvolver um novo culto religioso à volta da presidência Trump

Pelo menos esta é a tese de Reza Aslan, professor na Universidade da Califórnia, ao verificar que a grande base de apoio político do presidente é o sector WASP (white, anglo-saxonic and protestant), ou evangélico conservador, devido à convicção de que o actual inquilino da Sala Oval terá sido ungido por Deus para se tornar presidente dos Estados Unidos.

Há quem já lhe chame o Ciro dos tempos modernos, fazendo referência ao imperador persa do século VI a.C., o qual, tendo dominado a Babilónia, autorizou o retorno dos judeus à terra de Israel e a reconstrução dos muros da cidade e do templo de Jerusalém, decretando também que as populações das cidades nas quais eles moravam os ajudassem a restabelecer o antigo culto. Restaurou-se assim o centro de adoração judaico, tal como o hebreu Isaías havia profetizado e o cronista Esdras confirmado: “Assim fala Ciro, rei da Pérsia: o Senhor, Deus do Céu, deu-me todos os reinos da Terra, e encarregou-me de construir-lhe um templo em Jerusalém, que fica na terra de Judá. Quem é dentre vós pertencente ao seu povo, que seu Deus o acompanhe, suba a Jerusalém que fica na terra de Judá e construa o templo do Senhor, Deus de Israel, o Deus que reside em Jerusalém. Que todos os sobreviventes (de Judá) onde quer que residam, sejam providos pelos habitantes da localidade onde se encontrarem, de prata, ouro, cereais e gado, bem como de oferendas voluntárias para o templo do Deus que reside em Jerusalém” (Livro de Esdras 1:2-4).

A direita religiosa norte-americana está a deixar cair a sua base moral em nome da capacidade de exercer influência junto do poder político. Parece que o escândalo da interferência russa nas eleições não conta, nem tão pouco os múltiplos casos extraconjugais com estrelas do cinema pornográfico, ou a sua incapacidade de se lembrar de um único versículo bíblico quando lhe é pedido. Mas sobretudo o desprezo com que se refere às mulheres, aos muçulmanos, aos adversários políticos, aos imigrantes e aos pobres.

O homem que fugiu à guerra do Vietname, graças a expedientes manhosos e a um pai rico, teve o desplante de criticar o soldado John McCain por ter sido feito prisioneiro pelo inimigo na frente de batalha.

81 por cento dos evangélicos brancos votaram Trump em 2016 (67 por cento dos evangélicos negros votaram Hillary Clinton), mais do que votaram em George W. Bush, que se apresentava como evangélico. Não faz qualquer sentido, até porque Donald Trump sempre foi e é uma pessoa irreligiosa, que não revela valores cristãos como humildade, empatia ou cuidado com os pobres.

Talvez o chamado “evangelho da prosperidade” – uma perniciosa invenção americana – tenha contribuído para este estado de coisas. Os pregadores desta doutrina vendem a ideia de que a prosperidade material pode ser alcançada pela fé, em qualquer circunstância. Quando os eleitores olham para Donald Trump vêm um homem rico e entendem tal situação como uma marca da bênção divina, mais do que em qualquer outro candidato democrata ou republicano.

Além do mais, Trump verbalizou promessas de forma pública e privada, em campanha, no sentido de, a ser eleito, conferir poder a este sector religioso. Mas a questão é que a maioria dos cristãos evangélicos brancos estão a abandonar as suas crenças morais para seguir, como Reza sugere, alguém que exibe todas as marcas registradas de um líder de culto, assumindo-se como uma espécie de figura profética.

Pat Robertson – um líder influente no meio cristão americano, apesar das repetidas gaffes que protagoniza – disse que vira, num sonho, Trump sentado à direita de Deus, isto é, no lugar que pertence a Jesus Cristo…

Portanto, está montada a cena para dar quase adoração a uma figura humana de recorte salvífico. De facto a direita religiosa americana vendeu-se por um prato de lentilhas, isto é, pela possibilidade de ganhar influência política, o que não deixa de ser um caminho perigoso, em especial quando a personagem em questão é absolutamente imprevisível.

O fundamentalismo evangélico inventou um bezerro de ouro, como o povo hebreu recém-libertado do cativeiro criou aquela reprodução tosca da divindade egípcia do Boi Ápis, no início da travessia do deserto do Sinai.

Falta hoje, portanto, um Moisés que enfrente o problema com a energia que se impõe e combata esta aberrante idolatria.