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“Quo vadis”, Santana?

Quererá então fazer um partido para regressar ao mais velho e bolorento da política, impondo a famigerada “disciplina partidária” até para as questões morais?

1- Como é possível, que sentido faz, entre constantes declarações de amor, ser candidato a presidente de um partido, obter 46% de votos em eleições diretas, no Congresso subsequente ser o nº 1 de uma lista de consenso para o Conselho Nacional e defender a sua “unidade” – e menos de seis meses depois anunciar que se vai abandonar esse partido e criar outro? Não faz sentido nenhum e só é possível com uma figura como Pedro Santana Lopes (PSL), que ao longo de cerca de 40 anos de carreira política no seu ex “PPD/PSD” teve um percurso e protagonizou comportamentos que mostraram com ele tudo ser possível... De facto, ele sempre gozou, no “PPD/PSD”, de um estatuto muito especial. Embora agora, ao sair, sugira que nele se sentiu injustiçado ou maltratado!

2 - Na carta, PSL 
invoca razões 
“de índole histórica, organizativa, estratégica e programática”. O que, porém, faz, sem que se alcance como isso justifica tal abandono, é elencar seus pontos de vista que democraticamente não obtiveram vencimento e situações em que o partido não o apoiou como desejava, em particular quando foi demitido de primeiro-ministro pelo Presidente Jorge Sampaio. Ora, espanta que tantos anos depois continue a não ser capaz de um juízo lúcido sobre as circunstâncias em que ascendeu ao cargo, o seu desastroso desempenho e a inevitabilidade de o Presidente fazer o que fez. O que terá merecido pelo menos a compreensão de quem no PSD não vê a política como uma simples luta partidária/clubística.

3 - Mas adiante. Deixando de lado o seu flagrante desejo de estar sempre na ribalta, creio que sobretudo se conjugaram estes fatores para a decisão de PSL: a) após três sucessivas derrotas em candidaturas à liderança, concluir que não tinha mais condições para a ela ascender, como ambicionava; b) assim, para dispor de um instrumento para a defesa do que chama as suas “ideias”, ser-lhe indispensável criar o seu próprio partido; c) e, para tal, ser este o momento adequado. Porque: a) o PSD vive uma difícil situação, resultante sobretudo de incrível guerrilha interna contra Rui Rio; b) o CDS, após um período de ascensão de Assunção Cristas, está em baixa; c) as eleições europeias de maio de 2019 são as melhores para o partido “arrancar”, para isso devendo a sua criação ocorrer antes do fim deste ano.

4 - Quanto a “ideias” – o que apresenta mais são objetivos, com a generalidade dos quais até se poderá estar de acordo. 
A questão é a forma de lá chegar... Do que está na carta, e do que tem dito, resulta a vontade de fazer um partido liberal, à direita daquele de que sai e que, embora “social-democrata”, já é considerado de direita/centro-direita. Surpreendente, significativo e revelador é que, ao arrepio da prática, mesmo com Passos Coelho, do partido que vai abandonar, na carta Santana Lopes escreva: “Quero intervir politicamente num espaço em que não se dê liberdade de voto quando se é confrontado com a agenda moral da extrema-esquerda” (aborto, casamento homossexual, eutanásia?). Quererá então fazer um partido para regressar ao mais velho e bolorento da política, impondo a famigerada “disciplina partidária” até para as questões morais, venham as propostas de onde vierem?..