Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

O episódio de insónia de pessoa A

Pessoa B sentou-se em frente ao espelho, eliminou quaisquer vestígios de maquiagem e desilusão da cara com um daqueles lencinhos húmidos

Lea Roth/ Getty Images

Quando pessoa A informou pessoa B (sua companheira) que afinal não iriam à festa de 40 anos de pessoa C, a desilusão nos olhos de pessoa B dava para ver através do eyeliner. Que não dava, que precisava de descansar, que vinha aí uma fase de muito trabalho lá no escritório, umas Opas, umas fusões e aquisições, que temos sempre o lugar em risco e não é agora lá por ser administrador que não sei quê, que já não tinha 30 anos, que não ia aguentar uma noitada a fazer conversa de circunstância com pessoas que mal conhece, horas em pé a ouvir relatos não solicitados de férias na Costa Vicentina, em Sagres ou no Ancão, que se quisesse que fosse sozinha, ele (pessoa A) não iria nem morto (sabendo que pessoa B nunca iria sozinha), que entretanto pensaria numa desculpa. Pessoa B sentou-se em frente ao espelho, eliminou quaisquer vestígios de maquiagem e desilusão da cara com um daqueles lencinhos húmidos, tirou os brincos e voltou a pô-los na caixinha de veludo pardo e espelho enferrujado que já tinha sido duma bisavó e ligou à babysitter, pessoa D, a cancelar o compromisso para essa noite, pedindo encarecidas desculpas pela total e despudorada ausência de antecedência, pedido esse em relação ao qual se sentia mais credora do que devedora mas, enfim, já se sabe como é pessoa A. Pessoa D endossou esse mesmo pedido de desculpas a pessoa E, seu companheiro, que lamentou não disporem, assim sendo, do plafond necessário para o fim de semana que haveriam de passar dali a uns dias na Nazaré. A verba generosa correspondente a um serviço de babysitting assim de última hora, num fim de semana de agosto, ainda por cima para uns clientes de posses, não era de todo despicienda na situação em causa. Então ligas tu à pessoa F (que era a proprietária do quarto/room/chambre/zimmer) a cancelar, não me metas nisso, argumentou pessoa E. Assim à última da hora foi a única solução de alojamento que tinham encontrado disponível na Nazaré, e todos sabem o quão concorridas são todas as localidades costeiras deste país durante o mês de agosto. E todos sabemos também, por intuição, que um quarto que ainda esteja disponível para marcação de um dia para o outro no mês de agosto é porque deve ter ali coisa. Pessoa F, senhora de uma certa idade, não estaria a par das recentes exigências do turismo em crescendo em Portugal e espantava-se que não conseguisse alugar o quarto dos fundos desde os últimos anos até esta parte. Informou o marido, pessoa G, de que se calhar iam ter de vender a casa, aquela verbazinha certa dos meses de verão, proveniente dos alugueres do quarto, absolutamente necessária para a manutenção daquela casa à beira-mar, teimava em não aparecer. Sem vender a casa, não iam ter como pagar o crédito ao consumo que tinham obtido com um simples telefonema facilitado pela sobrinha, que lhes permitiu pagar o arranjo do motor do barco de pesca. Vendendo a casa, a casa onde tinha nascido, era capaz de lhe trazer um nó, um dó no peito que nem com meio garrafão de vinho por dia. Nessa noite, pessoa G nem pregou olho. A bem dizer, pessoa A também não dormiu grande coisa. Talvez fosse a ânsia de ter de dormir numa noite em que realmente podia, e de não estar a consegui-lo, talvez fosse a imagem do olhar de desilusão de pessoa B a furar o eyeliner, talvez fosse outra coisa qualquer, daquelas que uma pessoa não consegue propriamente determinar de onde vêm mas que, às quatro da manhã de uma noite em branco, assumem dimensões de tragédia e drama. Pessoa A achou que talvez um copo de água ajudasse, foi à casa de banho, tirou as escovas de dentes (que dormiam, essas sim, lado a lado, placidamente, dentro do seu copinho, sem quaisquer abstrações que as resgatassem do seu vertical repouso), limpou os restos de pasta dos dentes seca do fundo do copo com a ponta do indicador, encheu, bebeu, e pensou que se era para isto então se calhar mais valia ter ido ao raio da festa

(Crónica publicada na VISÃO 1327 de 9 de agosto)