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Ana Rita Cavaco 

Ana Rita Cavaco 

Bastonária da Ordem dos Enfermeiros

Os portugueses podem confiar no SNS?

Opinião

Ana Rita Cavaco 

D.R.

Ignorar a exaustão dos profissionais é colocar em risco o SNS e desprezar o seu contributo para a coesão social

Confiança é a palavra-chave na Saúde. É ela que garante, em grande medida, o sucesso da relação entre quem cuida e quem é cuidado. A confiança cura. A falta de confiança mata. É cada vez mais difícil confiar num serviço que tem sido constantemente maltratado, usado para interesses particulares, em vez de responder ao bem comum. Aliás, as palavras são do pai deste pilar da Democracia. “Há uma política de enfraquecimento do SNS”, dizia António Arnaut meses antes de nos deixar. Um projeto que nasceu para estar ao serviço de todos foi canibalizado por meia-dúzia.

Não era preciso esperar pelo último Relatório da Primavera do Observatório Português dos Sistemas de Saúde para perceber a total ausência de estratégia deste Governo. O diagnóstico está feito. Os resultados das reformas são inexistentes. Uns dirão que falta dinheiro. Prefiro sublinhar que falta vontade e competência. O SNS tem de deixar de ser o castelo dourado utilizado pelos sucessivos governos para colocar os príncipes e as princesas com o cartão do partido. É preciso nomear pelo mérito e gerir com humanidade, competência e coragem. É urgente ouvir quem está no terreno, democratizar os mecanismos de gestão hospitalar e colocar um ponto final na cultura do medo e da ameaça.

Anunciar o fim da austeridade e continuar a afirmar que não há dinheiro para contratar enfermeiros, pagar as horas a mais ou valorizar a carreira, não é só incoerência, é assumir que a Saúde é o parente pobre deste Governo. A despesa com os profissionais do setor está abaixo da média dos países desenvolvidos. Já a taxa de infeções hospitalares duplica a média europeia. Estes números são pessoas. Vidas. As mesmas que veem os tempos de espera para uma consulta disparar em vários serviços.

Os portugueses ainda confiam no SNS porque confiam nos profissionais de Saúde e são testemunhas da sua dedicação, profissionalismo e constante espírito de sacrifício. Estou há pouco mais de 2 anos a alertar para o problema estrutural da falta de enfermeiros. À nossa proposta de contratação faseada, o Governo respondeu com silêncio enquanto injetava mais uns milhões de euros na banca. 
É impossível continuar a pedir o impossível a quem já deu tudo. Os portugueses sabem que os enfermeiros têm sido um dos garantes da qualidade e segurança dos cuidados prestados no SNS. É este elo que nenhum governo pode ousar quebrar: chama-se confiança. Ignorar a exaustão dos profissionais é colocar em risco o SNS e desprezar o seu contributo para a coesão social.

Dizemo-nos evoluídos mas pedimos aos enfermeiros que trabalhem 70 horas por semana, que cuidem de mais de 
20 pessoas num turno, que, já agora, trabalhem sem comer ou ir à casa de banho. Tudo isto pela módica quantia de um pouco menos de 1000 euros, sejam eles especialistas ou de cuidados gerais, com 
1 ou 30 anos de profissão. Assim, pobrezinhos e maltratados é que eles estão bem. O mundo inteiro estende-nos a passadeira vermelha, só querem Enfermeiros Portugueses, o nosso país pisa-nos sem dó nem piedade. Eles, aqueles que nos protegem a vida todos os dias do ano em regime de non stop.
Confiar é acreditar. O SNS continua vivo porque há quem teime em não 
desistir. Até quando?

(Artigo de Opinião publicado na VISÃO Saúde nº 2)

Ana Rita Cavaco 

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Bastonária da Ordem dos Enfermeiros

Bastonária 
da Ordem 
dos Enfermeiros