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Les Bourgeois

Se fosse com um vereador do PSD ou do CDS, o Bloco estaria, a esta hora, não tenhamos dúvidas, a avaliar a legalidade do negócio, a querer saber o valor das contas bancárias, a duvidar da bondade das suas intenções, a contar os m2 dos apartamentos, à procura dos rostos dos despejados, a denunciar a agência imobiliária, a fazer cordões humanos à volta do prédio

Lembrei-me de Les Bourgeois, de Jacques Brel, ao ver Catarina Martins e Francisco Louçã defenderem Ricardo Robles com candura.

Para quem não conhece, a canção de Brel conta a história de um grupo de três jovens que passam a noite a beber num pub, enquanto vão perorando e insultando e acusando, em permanente abuso verbal, alguns advogados que saem de um bar de um hotel do lado oposto: et quand vers minuit passaient les notaires/ qui sortaient de l’hôtel des “Trois Faisans”/ on leur montrait notre cul et nos bonnes manières/ en leur chantant/ les bourgeois c’est comme les cochons/ plus ça devient vieux plus ça devient bête/ les bourgeois c’est comme les cochons/ plus ça devient vieux plus ça devient…

Os jovens, entretanto, crescem, tiram os seus cursos e passam naturalmente a frequentar o bar de advogados do hotel, onde continuam a conversar sobre o mundo. A canção termina com o trio a relatar à polícia o abuso verbal e as acusações que, ao saírem do bar do hotel, estavam a sofrer de uns jovens sentados no pub do lado oposto: et c’est en sortant vers minuit Monsieur le Commissaire/ que tous les soirs de chez la Montalant/ de jeunes “peigne-culs” nous montrent leur derrière/ en nous chantant/ les bourgeois c’est comme les cochons…

Nenhuma outra canção ilustra tão bem o estado atual do Bloco de Esquerda, revelado pelo caso Robles.

Tal como o trio de jovens no começo da canção de Brel, o Bloco de Esquerda do princípio do século nunca teria saído em defesa de Robles. Não teria vindo, como Francisco Louçã, justificar o negócio do vereador com as regras do livre mercado e de formação de preços; não teria vindo, como Catarina Martins, dizer que não havia nada de errado numa operação imobiliária igual a todas as outras que o Bloco abjura; não teria vindo, como Mariana Mortágua, apelar aos constrangimentos familiares de Robles, não muito diferentes dos constrangimentos dos senhorios de que o Bloco nunca quis saber.

É normal que um partido demore tempo a reagir a uma situação destas, a um comportamento desconcertante de um dos seus dirigentes, porque há sempre 
ligações pessoais, contextos que só os próprios conhecem, amizade, necessidade de preservar alguém de quem se gosta, que pode estar a ser desproporcionalmente acusado. Não sei, por isso, o que é que o Bloco do princípio do século diria, e estou ciente de que nunca seria uma situação fácil, de resolução cristalina, porque a política não é feita apenas de calculismo e há uma componente pessoal, humana, de amizade – e ainda bem, e que eu respeito e compreendo.

Mas sei, apesar disso, apesar dessas dificuldades,
o que é que esse Bloco, o Bloco inicial, jovem, idealista, não faria: não fingiria que nada se passava, não fingiria que o negócio do vereador, perfeitamente legítimo para um liberal como eu, não chocava frontalmente com tudo o que o Bloco andava a dizer há anos, não fingiria que a contradição do negócio com o discurso 
do Bloco não era apenas factual, material, mas 
era também moral.

Porque o combate do Bloco foi sempre um combate moral. É só assistir às intervenções de Ricardo Robles e do Bloco de Esquerda, nas sessões públicas da Câmara ou na Assembleia Municipal de Lisboa, que está lá tudo: considerações morais sobre quem tinha capital, sobre quem lucrava com negócios imobiliários, sobre quem desfazia prédios de habitação permanente para os transformar em prédios de alojamento local, sobre quem defendia a reforma do arrendamento de Assunção Cristas, sobre todos aqueles que faziam, afinal, o que Robles foi apanhado a fazer. Se fosse com um vereador do PSD ou do CDS, o Bloco estaria, a esta hora, não tenhamos dúvidas, a avaliar a legalidade do negócio, a querer saber o valor das contas bancárias, a duvidar da bondade das suas intenções, a contar os m2 dos apartamentos, à procura dos rostos dos despejados, a denunciar a agência imobiliária, a fazer cordões humanos à volta do prédio, a pedir esclarecimentos sobre a velocidade do licenciamento, sobre o andar a mais, sobre a bota não dizer com a perdigota, pintando murais, denunciando amizades com fundos abutres.

O que se passou, então, com o Bloco? O que o levou a sair em defesa ativa, assumida, frontal, nunca envergonhada ou tíbia, de Robles? O que o levou a inventar cabalas, acusar a imprensa e os grandes interesses? O que o levou a tentar legitimar um negócio que de forma alguma cabia no discurso moral do Bloco?

Passou-se com o Bloco o mesmo que se passou com o trio de jovens de Les Bourgeois. A ambição moral 
de épater les bourgeois ainda lá pode andar, em ideais 
e manuais, mas há muito que o Bloco se converteu 
ao normal funcionamento dos partidos políticos, 
à realpolitik. Foi por isso que Catarina Martins 
e Francisco Louçã não passaram, esta semana, a cantar les bourgeois c’est comme les cochons mas antes
a apresentar queixa na polícia contra quem lhes 
cantava a ladainha.