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Opinião

Miguel Araújo

Acho honestamente que os atalhos de fugir ao trânsito estão entupidos com os carros todos das pessoas todas, que são todas elas, que conhecem os atalhos de fugir ao trânsito e sobro eu

Marcos Borga

Tenho o hábito de olhar para a vida real através dum vidro que não é transparente. Não me interesso pela realidade inócua, anódina, anónima. Não é que a realidade exista concretamente, senão no olhar de cada um, mas ainda assim eu não me sintonizo pelo que vejo ver. A maior parte das pessoas acompanha os telejornais, anda com o saco do Expresso debaixo do braço aos sábados de manhã, está a par dos melhores tarifários das redes móveis, sabe as manhas de poupar aqui e ali no gás, na luz e na água, pediu os impressos a tempo, estava atenta quando alguém disse onde é que se levantavam as senhas das filas de espera desta vida, aperta com as outras por causa de orçamentos e prazos. Essa realidade do correr dos dias não me aflige, e eu procuro afligi-la quase nada também. Temos uma relação cordata mas bastante fria e distante. Roço-a pelos mínimos, ando munido dos básicos essenciais para me movimentar por esta vida o menos que ela me peça, mas não vou além disso. Sou um asceta da vida real e, metaforicamente falando, ando pela vida descalço, em posição de lótus, com uma leve tanga de algodão a tapar-me as partes. Não sei onde ficam os atalhos para fugir ao trânsito. Acho honestamente que os atalhos de fugir ao trânsito estão entupidos com os carros todos das pessoas todas, que são todas elas, que conhecem os atalhos de fugir ao trânsito e sobro eu, de cotovelo de fora, sozinho na alameda larga que toda a gente quis evitar na hora de ponta, com o Telegraph Road dos Dire Straits a apascentar-me a alma peregrina. A rádio fala em trânsito no nó de Águas Santas eu penso que dantes a minha terra natal não figurava nas conversas do dia a dia, nos relatos radiofónicos da manhã e que hoje em dia entra, que engraçado, e o meu orgulho aquasantense inflama perante a mera menção do nome da minha terra, apesar de achar ligeiramente lamentável que o nome da minha terra venha constantemente associado a um nó que estrangula a locomoção de cidadãos. E penso que as pessoas todas usam a palavra “trânsito” ao contrário. As pessoas dizem que está muito trânsito quando precisamente não há nenhum, na medida em que falam de “trânsito” quando os carros não transitam. A palavra trânsito significa fluxo, passagem, então o correto seria dizer que se está parado há duas horas em Pina Manique porque não há trânsito. Entre os meus olhos e a realidade há um vidro fosco, coberto por uma gelosia de uns arabescos retorcidos em cornucópia que a distorcem sempre a meu favor. As pessoas execram demoras, silêncio, salas de espera, suspiram de aflição quando a voz dos altifalantes (a voz de qualquer altifalante em qualquer parte do mundo é sempre a mesma, como pode tal coisa?) lhes diz que o avião vai demorar ou que a pessoa que vai entrar para a consulta é outra que não essa pessoa, mas é precisamente essa a lenha que alimenta a fornalha da minha alma. As caras, as senhoras com as pontas dos pés para dentro, os velhotes de olhares húmidos a boiar por cima de tudo, as adolescentes a fazer bolas de chiclete de telemóvel na mão, as revistas maravilhosas em cima das mesas de tampo de acrílico. Certa vez apanhei a senhora do balcão de uma perfumaria a encorajar a cliente na compra de um qualquer perfume que, segundo o seu parecer profissional, “cheirava bem”. “Leve esse, esse cheira bem.” Que coisa maravilhosa de se ouvir. Que coisa maravilhosa. Tudo é incrível, absolutamente tudo é um espanto, um deleite para a alma, se uma pessoa não se distrair com a realidade cinza-rato / cinza-fato / cinza-facto de que a vida se disfarça no primeiro encontro

(Crónica publicada na VISÃO 1325 de 26 de julho)