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Para lá das quatro linhas também há mundo

Continua a ser mais difícil chegar à universidade do que a titular de uma equipa de futebol. Um campo de futebol será sempre um espaço mais democrático do que uma sala de aula

A esta hora que escrevo ainda não começou a final do Mundial. Gostava que o jogo se decidisse em 90 minutos com golos e jogadas bonitas que eternizem o futebol como um grande desporto de equipa.

O internacional francês Eric Cantona correalizou com Gilles Perez, em 2014, o documentário Foot et Immigration: 100 Ans d'Histoire Commune, transmitido nestes dias n’A Bola TV, e que revela de forma impressiva como os fluxos migratórios e a busca de uma vida melhor marcam profundamente a história e as identidades culturais dos países. Os testemunhos e os percursos familiares de Raymond Kopa, Michel Platini, Zinédine Zidane, Basile Boli, Eric Cantona provam que a imigração polaca no início do século XX, os milhares de republicanos espanhóis no final da década de 30, os italianos (ou portugueses) que fugiam da miséria dos campos e do fascismo, os argelinos e costa-marfinenses que se aventuravam num barco na luta pela sobrevivência, todos marcaram e continuam a construir uma identidade cultural tão plural. Aliás, é curioso que os jogadores confessem que não cantavam e alguns até desconheciam a letra de La Marseillaise, sem que tal os fizesse sentir menos franceses; no entanto, tal foi xenofobicamente notado por Le Pen algures na década de 90 quando reagiu à presença de tantos jogadores negros na seleção francesa.

Diferenças reconhecidas, a seleção nacional será também hoje um retrato das diferentes vagas de emigração e imigração. E ainda bem. Adrien, Anthony Lopes e Raphael Guerreiro, filhos de emigrantes portugueses em França; Cédric, filho de portugueses na Alemanha, a viver em Portugal desde os 2 anos; William Carvalho chegou de Luanda ainda muito pequeno, assim como Gelson Martins que nasceu em Cabo Verde; Pepe naturalizou-se e vive no nosso país desde os 18 anos.

A multiculturalidade que o futebol proporciona e concretiza deve ganhar expressão em todos os domínios da sociedade, deve ser afirmada e assumida como um objetivo político, e para isso devem cruzar-se medidas de natureza económica, social, cultural. Medidas ainda mais importantes quando vivemos tempos marcados pelo recrudescimento do racismo, da xenofobia e do ascenso de movimentos organizados de promoção do ódio e da violência.

A verdade é que continua a ser mais difícil chegar à universidade do que a titular de uma equipa de futebol. Um campo de futebol será sempre um espaço mais democrático do que uma sala de aula. Aí, dentro das quatro linhas, será menos determinante a escolaridade dos pais, as condições económicas e sociais das famílias, se o português é língua não materna ou não, a cor da pele, se sobra dinheiro no final do mês para assistir a uma peça de teatro, a um filme, a outros estímulos de educação não formal. E será sobretudo assim, quando as propinas e a limitação da ação social escolar barram à partida muitos jovens na entrada para o Ensino Superior (público). Quando o valor das propinas ronda dois salários mínimos e a maior parte dos jovens tem consciência de que, mais do que fazer sair, importa fazer entrar dinheiro em casa. Quando a maior parte dos estudantes de famílias pobres, negros e imigrantes são empurrados para o ensino profissional, onde os conteúdos curriculares e o calendário letivo tornam praticamente inviável a realização de exames nacionais para acesso ao Ensino Superior, quem se candidata e entra é herói. Dados recentes demonstram que 38,6% dos estudantes no Ensino Secundário frequentam cursos profissionalizantes e, destes, apenas 5% se inscreveram no Ensino Superior.

O combate firme ao racismo e a celebração das vitórias da multiculturalidade são tarefas diárias, dentro e fora das quatro linhas, porque esta batalha é parte integrante da luta por uma sociedade mais justa, livre da opressão e da exploração.

(Crónica publicada na VISÃO 1324 de 19 de julho)