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A geringonça já não é

Já toda a gente sabe que o casamento acabou. Ninguém quer é ser o primeiro a pôr os papéis para o divórcio

Na geringonça já toda a gente sabe que o casamento acabou. Ninguém quer é ser o primeiro a pôr os papéis para o divórcio. Porque o País continua feliz com a solução governativa e ninguém quer carregar o ónus de acabar com ela. Não vale a pena, portanto, perder muito tempo com a novela do Orçamento. Este será aprovado e a geringonça chegará ao fim da legislatura. Mas em boa verdade já o não é e não lhe sobreviverá.

E sou perentório por duas razões. A primeira é política. Com o fim da era Passos Coelho no PSD desaparece o cimento que mantinha unido um saco de gatos com visões do mundo radicalmente diferentes. A geringonça nunca foi uma coligação positiva. Uniu-se em torno do ódio a um projeto. Não se uniu em torno do apoio a nenhum outro. Enquanto o inimigo comum existiu, o baile durou. Quando o azedume de Passos Coelho foi substituído pelo centrismo de Rio, a dança subitamente acabou. E já ninguém disfarça a maçada que para todos constitui a obrigação de coabitar até 2019. Como diria o Bergman, são cenas da vida conjugal.

Porém, há também razões económicas. Contrariamente às viúvas do passismo, não sou dos que acham que este Executivo não tem qualquer mérito na recuperação económica do País. A economia são também expectativas, e o discurso obsessivamente castigador do Executivo anterior não era nem politicamente sustentável nem economicamente desejável. Algum crédito há que atribuir a António Costa pela recuperação da confiança dos agentes económicos.

Mas, isto dito, a economia também não vive só de expectativas. Ou dito de outra forma: as expectativas não são sustentáveis se não se fundarem minimamente na realidade. E a verdade é que os problemas fundamentais do País continuam por resolver. Não foram atacados pelo governo PSD/CDS
 (também há que acabar com essa mitologia), mas muito menos o foram pela geringonça. A dívida continua teimosamente alta. O insustentável peso do Estado está lá e aumenta. 
As malhas kafkianas da Justiça continuam a afastar o investimento. As leis laborais (justiça seja feita, uma das poucas áreas em que o governo de Passos fez alguma coisa levemente parecida com uma reforma estrutural) continuam a ser pensadas como se ainda estivéssemos em plena primeira Revolução Industrial. Dito de outra forma: é insustentável imaginar a próxima legislatura sem atacar os problemas de fundo. Não há mais cativações nem mais adiar de investimentos que resistam. Sabemo-lo todos, e sabe-lo, melhor do que ninguém, o Governo. E é por todos o sabermos que é fácil perceber que é impossível repetir a geringonça. Ou alguém acredita que o PS tem uma visão para o futuro do mercado laboral minimamente conciliável com a do PCP? Ou que os dois partidos têm planos compatíveis para o problema da dívida? Ou mesmo que partilham a mesma visão sobre a centralidade do Estado? E só não incluo o Bloco nestas interrogações metafísicas porque não me parece minimamente implausível que as suas convicções profundas fiquem na gaveta, em nome do desejo pavloviano e confesso de chegar ao Governo.

Termino como comecei. O casamento já só é de fachada. Assim continuará por mais um ano. A geringonça já não é e muito menos será. Tudo o resto é folclore.