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José Eduardo Martins

Opinião

José Eduardo Martins

Advogado e ex-deputado do PSD

Tutti quanti

Quer isto dizer que o eventual novo partido de Pedro Santana Lopes poderá ser um problema para o PSD? Não creio. Falta, em absoluto, novidade

A crise do euro foi redesenhando o mapa político da Europa, com fugas para os extremos e partidos novos, mas Portugal, apesar de ser dos mais afetados economicamente, misteriosamente resistiu a tudo praticamente com os mesmos partidos e protagonistas.
Em Espanha, onde a crise teve metade do impacto, a direita está pela segunda vez em acelerada recomposição. O Ciudadanos vai substituir o PP como anteriormente o PP tinha substituído a UCD de Adolfo Suárez.

Mas o que aconteceu em Espanha, o que matou o PP e fez com que meia dúzia de pessoas sérias, independentes e com estudos lhes ficassem com os votos não foi a crise, foi outra coisa: o PP afundou-se num mar de corrupção, perdeu o respeito das pessoas quando deixou de ser um partido com defeitos para ser um partido de corruptos apesar dos muitos que por lá não o eram.

Quer isto dizer que o eventual novo partido de Pedro Santana Lopes poderá ser um problema para o PSD? Não creio. Falta, em absoluto, novidade. Mas a operação Tutti 
Frutti, ou outra parecida, se as acusações forem verdadeiras, que nisto da presunção de inocência ninguém é menos do que o eng. Sócrates, pode e deve ser o detonador da falta de paciência com que há muito olhamos para tudo isto.

Em síntese, para quem não reparou, o tema é toda uma geração de gente nova, aquele alfobre de onde se esperaria a renovação e de onde afinal emerge uma geração de fruta podre, que se habituou a partidos mas se desabituou de estudar ou trabalhar e por isso fez dos partidos modo de vida.

Podia ser por aqui ou por outro lado, salada em vez de fruta e outros protagonistas. O caso é sobretudo importante pelo que revela do modus operandi da terra média escondida dos partidos.

Em síntese, a rapaziada divide-se em três lotes, os de fora que fundem empresas e se dedicam ao “setor privado”, os de dentro que as contratam e, pelo caminho, uns operacionais avançados para manobrar a geringonça eleitoral interna dos partidos que vai alimentando o mecanismo.
Os últimos, simples operários, vivem das avenças públicas para organizar os exércitos de eleitores internos que garantem que os segundos as podem distribuir… nem na malandrice se pode afinal iludir 
a luta de classes. Irónico, triste, mesquinho.

Já mais acima, para que tudo funcione na perfeição, os primeiros garantem a colaboração interpartidária, a bem da pluralidade no portal dos contratos públicos, sempre que a coisa não se pode evitar.

Tudo o que muitos livros explicam sobre as necessidades dos homens pequenos mas que Sophia sintetizou naquele triste e monumental “o mal encontra o mal, ambos se entendem compram e vendem”.

Os dirigentes de hoje já não precisam de inteligência, reflexão ou capacidade de convencer uma assembleia da justeza das suas propostas. O que interessa é saber quem está com quem, quem são os cabos eleitorais que garantem a eleição.

E aí os nomes que na rua ninguém conhece são os gigantes da luta. Se há um só candidato, não há discussão; se há mais do que um, está o caldo da verdadeira liberdade entornado.
Foi por isso particularmente pequenita a reação do PSD. Para começar, registou, como se o partido fosse um snack-bar que mudou de gerência, que os factos ocorreram com a direção anterior. Depois explicou que só se pronunciam depois do “trânsito em julgado”, dos factos.

Estava em crer que já tínhamos evoluído com o caso Sócrates, que tínhamos pelo menos percebido que o tempo da justiça e o da política são diferentes. Como se pode fazer da moralização o credo e candidatar ou manter dirigente quem se faz alvo de tão graves suspeitas?

Poder pode, mas não se admirem depois quando chegar não um partido novo de gente decente como em Espanha, mas um qualquer Bruno de Carvalho com mais banha da cobra e menos graça que leva pela frente um país que se vai habituando à bitola baixa do futebol.

(Artigo publicado na VISÃO 1323, de 12 de julho de 2018)