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O mundo começou a ser feito por detrás

Opinião

António Lobo Antunes

Foi curioso dado que ele era pequenino e a pistola enorme, e o sujeito espumava, ameaçador, berrando que eu o metera num livro chamado Conhecimento do Inferno. Disse-lhe que sim, era verdade, e pode ler-se o recto, julgo, em qualquer edição mais recente e séria da História de Portugal

Susa Monteiro

O hospital onde comecei a minha formação psiquiátrica era Santa Maria, a que me habituara porque tirei o curso lá, mas fui obrigado a mudar na sequência de haver dito ao meu chefe, durante uma reunião de equipa, que ele, quando cruzava as pernas, não tinha nada no meio. O sujeito não gostou sei lá porquê, feitios, queixou-se ao Director, o Director chamou-me ao gabinete explicando que o outro me queria pôr um processo disciplinar e que, a fim de evitar nódoas maçadoras no currículo, talvez fosse melhor eu concorrer ao Hospital Miguel Bombarda, para o qual haviam aberto concurso. Ainda tentei, questão de cortesia, despedir-me do chefe mas ele trancou--se à chave no gabinete dizendo às enfermeiras que apenas saía quando eu já não estivesse lá, um exagero uma vez que me apetecia simplesmente dar-lhe um encostozinho de nada, de modo que não pude despedir-me do sujeito em condições

(despedi-me mais tarde num congresso, um dia conto).

O Hospital Miguel Bombarda aceitou-me e fiz nele a via crucis da minha carreira toda, concurso de entrada no internato, concurso de saída para o título de especialista, concurso de entrada como assistente, etc., num local que conhecia desde criança por, às vezes, acompanhar o meu pai que dirigia o laboratório e tinha uma coleção de cérebros em caixas de vidro que nunca mais acabava, ajudado pelo senhor Quilincho e pelo senhor Moisés que ao referirem-se a ele lhe chamavam sempre o paizinho do menino. Claro que me puseram mais dois processos disciplinares, já nem me lembro bem porquê, eu que sou um santo, e um colega que chegou ao hospital de pistola, decidido a matar-me: foi curioso dado que ele era pequenino e a pistola enorme, e o sujeito espumava, ameaçador, berrando que eu o metera num livro chamado Conhecimento do Inferno. Disse-lhe que sim, era verdade, e pode ler-se o recto, julgo, em qualquer edição mais recente e séria da História de Portugal. De qualquer das formas, como dizem os sapateiros, gostei do Bombarda. Aí estiveram pacientes ilustres, o poeta Ângelo de Lima, cujo processo encontrei, escrito e assinado pelo punho de Miguel Bombarda, a pintora Josefa Greno, que se suicidou no hospital, o desenhador Stuart Carvalhais, autopsiado pelo meu pai

(recordo-me dele chegar a casa e dizer emocionado

– Fiz hoje a autópsia de Stuart Carvalhais)

internado várias vezes por alcoolismo crónico e que ao sair, abstémio, pedia

– Não me tratem por Stuart Carvalhais, tratem-me por Stuart Carvalhelhos

um notável gravador francês a quem chamavam Monsieur Anatole e que, ao perguntarem-lhe se tinha filhos respondeu

– Non monsieur je ne fabrique pas des cadavres

o D. Manuel, campino na vida clandestina e na realidade Imperador de Portugal, dono do Casino de Monte Carlo e da Fundação Calouste Gulbenkian, que me oferecia cheques de milhões de contos, prevenindo-me

– Diga ao meu primo Calouste Gulbenkian que não estou contente com a Fundação

cumprimentando as pessoas com a mão esquerda porque a direita reservava-a para a rainha de Inglaterra, também prima sua, é óbvio. O meu primeiro trabalho publicado, aliás, foi sobre Ângelo de Lima, chamava-se “Ângelo de Lima e a Criação Artística”, ganhou o Prémio da Sociedade Portuguesa de Neurologia e Psiquiatria, cujo dinheiro me fez um jeitão, somando-se minusculamente aos cheques 
de D. Manuel, cuja generosidade me ia enchendo os bolsos embora o meu banco, sei lá porquê, torcesse o nariz. Lembro-me de um outro trabalho, acerca de “As Duas Faces Da Poesia De Antero”, que permitia datar muitos sonetos, de um terceiro sobre D. Duarte, “D. Duarte Ou A Depressão No Trono”, de um quarto à volta de Lewis Carroll, “Lewis Carroll Ou A Esquizofrenia Esconjurada”, talvez os junte a todos quando acabar os romances, que cessarão em 2022, depois de refundir e ampliar a sua prosa juvenil, que me levava a adiar os livros que me ferviam na cabeça, porque me ajudaram a assentar as minhas ideias sobre Literatura e Teoria da Literatura, assuntos que continuam a interessar-me e que julgo auxiliarem a entender a obra que fui publicando e que, com mais três livros, quedará completa. O Hospital Miguel Bombarda ofereceu-me uma riqueza de material infinita e a possibilidade de um olhar mais fundo sobre aquilo que Unamuno chamava los tenebrosos rincones de la alma humana e estou-lhe muito grato por isso. A obra do próprio Bombarda é notável, apesar de algumas teses horripilantes: a de que, por exemplo, só apareciam psicopatas homens na consulta externa porque as mulheres eram todas. Mas foi um homem superior e até na morte o demonstrou. Assassinado no hospital por um paciente que o acusava de lhe ter roubado a ereção, isto nas vésperas do 5 de Outubro, golpe de que ele era o chefe civil, e que provocou o suicídio do chefe militar, o Almirante Candido dos Reis, pediu que não matassem o assassino com o argumento de que era apenas um pobre doente. Ao vir-me embora, por necessitar de mais tempo para a minha obra, estava a chegar ao carro quando um internado me pegou no braço, com o aspecto ansioso de quem tinha uma comunicação vital e urgente a fazer.

Então encostou a boca à minha orelha, explicou baixinho

– Sabe, senhor doutor, o mundo começou a ser feito por detrás

sumiu-se e eis a melhor lição de técnica que recebi. Tinha toda a razão. O mundo começou de facto a ser feito por detrás. Graças a Deus as suas palavras ainda chegaram a tempo.