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Opinião

Miguel Araújo

Eu, que ligo ao que a internet diz sobre mim e acompanho, tenho a sorte, o imérito e o indevido privilégio de me deixar galvanizar pelo bem que de mim se diz e ignorar o que sobre mim se pragueja e blasfema

Em abril de 2014 lancei, via YouTube, a canção Balada Astral, uma canção escrita especificamente para o casamento duns amigos, mas que acabou por fazer parte do meu álbum da altura, Crónicas da Cidade Grande. Cada vez que se lança música nova, se tudo correr bem, há uma onda de entusiasmo que se gera em torno, que emana daquele círculo de pessoas que acompanha e aprecia o nosso trabalho.

É um exército de gente simpática que trata de almofadar o ego do artista com comentários positivos, rasgados encómios que criam uma bolha de autoestima dentro da qual o artista vai granjeando forças para continuar. Mas claro que há sempre aquele comentário acre e acutilante que perpassa essa armadura de amor e atinge o coração do cantor como flecha impregnada de fel. Nessa altura destacou-se uma estimada ouvinte que, cíclica e consistentemente, largava um comentário acusando-me de ser uma “cópia bruta” de um tal de Marcelo Jeneci. Que eu era um “chico-esperto” e que, até pela barba, pela forma de vestir, se podia intuir que eu cravaria os meus caninos, qual chacal, na jugular por onde correria toda a seiva criativa desse tal de Jeneci.

Eu, que ligo ao que a internet diz sobre mim e acompanho, tenho a sorte, o imérito e o indevido privilégio de me deixar galvanizar pelo bem que de mim se diz e ignorar o que sobre mim se pragueja e blasfema. Mas, pela consistência da acusação, fui espreitar quem seria esse tal Marcelo Jeneci que até então eu desconhecia. Devo à detratora tão enriquecedor e fértil conhecimento. Não conhecia o Jeneci mas passei a conhecer e deixei-me encantar pela sua música. Passei a acompanhar, tornei--me um seguidor. Se não o imitava até então, tinha sido por mero desconhecimento.

Desde então passei a permitir-me ser bafejado pela sua influência: a minha canção 1987 deve qualquer coisa à sua encantadora Pra Sonhar, em particular o ritmo e a cadência da entrada do violão. E depois já se sabe como é a vida e o seu novelo emaranhado de ocorrências que, se a gente permitir, opera a sua magia de maneiras que não param de surpreender. A propósito do 10 de Junho, fui tocar a São Paulo, na majestosa Sala São Paulo.

O concerto foi planeado pelo consulado, que tratou de gizar um encontro entre dois músicos dos dois lados do oceano: o concerto teria como mote central o encontro entre o Marcelo Jeneci e eu. Como as coisas são. Foi um encontro maravilhoso, cuja fertilidade, espero e antevejo, se dilate para lá desse encontro pontual. Pude nutrir-me de uma outra forma de pensar, viver, entender a música, alargar as palas que me ladeiam os olhos, aprender, olhar de uma outra perspetiva. Pude tocar e cantar as maravilhosas Pra Sonhar e Feito Pra Acabar (a mesma que serviu de prova de acusação no caso Balada Astral), pude ouvir as minhas Recantiga e Anda Comigo Ver os Aviões cantadas e tocadas noutra música, pude ter longas conversas em palco entre guitarra e sanfona.

A expressão “Lusofonia”, que de tão batida e forjada pelas bocas do protocolo e da formalidade já soa a maleita do palato, revelou a sua importância quando nos sentámos e começámos a conversar. A nossa língua comum não torna Portugal maior, permite algo muito maior do que isso: torna o mundo mais pequeno. O concerto foi mágico. Tocar e cantar as nossas músicas para quem não as conhece tem algo de mágico, tem um travo fresco a primeira vez. Voltei para Portugal feliz e agradeci, em pensamento, à detratora do YouTube.

Fiquei a pensar na forma incauta e displicente com que as pessoas ligam o aspersor de veneno e atacam tudo em sua volta, na internet. E fiquei a pensar que é preciso ter cuidado com o mal que se entorna sobre o mundo: nunca se sabe o bem que dum gesto desses poderá advir