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Não se pode nada contra o céu sobretudo quando está a chover

Com mais dois ou três compinchas, tão palermas quanto eu, levávamos um frasquinho de Madeiras do Oriente, aos domingos de manhã, para os degraus da igreja de Benfica, no propósito louvável de o exibir a cristãos idosos que subiam, de bengala, os degraus da Eternidade, propondo-lhes, berrando de ternura – Se quer rezar por alma da sua tesão experimente comprar isto e deixa de necessitar de novenas

Susa Monteiro

Como quase toda a gente acima da média o meu pai tinha os defeitos das suas qualidades mas julgo que o seu maior defeito era eu. Aos treze anos declarei-lhe que precisava de falar com ele de modo que nos fechámos no escritório

(microscópio, papéis, livros, cinzeiro, cachimbos, latas de Three Nuns, o seu tabaco favorito, janela para a imensa figueira do quintal)

e declarei-lhe que não queria estudar mais, precisava do tempo todo para as minhas produções literárias porque era o maior escritor de Portugal e que o melhor, para o Mundo e para mim, era o meu pai arranjar-me emprego numa livraria a fim de, entre fregueses, ter tempo para conversar com Fernão Lopes a fim de trocarmos umas ideias sobre Literatura que aproveitassem aos dois

mais até Fernão Lopes, que bem necessitado estava, do que a mim)

o meu pai, incompreensivelmente, respondeu que devia estar parvo e após longas negociações em que, a certa altura, ele me chamou parvo integral, definição de um tio meu para as criaturas da política e que não me parece inteiramente desajustada, de modo que acabei por aceitar, por puro cansaço, a ideia de ir para Medicina, Faculdade em que lá me matriculei aos dezasseis anos, onde ele ensinava e onde eu não ia às aulas. Vinha acordar-me de manhã, abrindo a janela do quarto, eu perguntava-lhe

– Quis assistir ao despertar de um génio?

ele olhava banzado para o parvo integral que saía, revoltadíssimo, da cama e que passou dois anos sem pôr os pés nas aulas, ocupado pela concepção e escrita de um longo poema decisivo que acabou sem glória no cesto dos papéis e, à imagem e semelhança de todas as outras obras-primas que compunha, raivoso, frustrado e inabalável. O João entrou para Medicina também, um professor, então muito importante, declarou sonoro

– O Lobo Antunes tem dois filhos: um é bom, o outro é uma nódoa

frase que me fez sentir gloriosamente incompreendido e muitos anos depois, ao darem-me o doutoramento honoris causa, lembrei ao Reitor da Universidade de Lisboa, surpreendido por ela exaltar nódoas quando o que eu merecia de facto era uma limpeza a seco. A minha mãe, criatura subtil, foi mais eficaz: prometeu-me a carta de condução se fizesse todas as cadeiras na primeira época, e como não me pareceu um mau negócio acabei o curso em três tempos, com a vantagem adicional de poder sair num Renault decrépito aos sábados à noite e estacioná-lo em lugares sossegados para conversas sobre Química Orgânica com raparigas e senhoras encontradas nos bailes dos Bombeiros Voluntários Lisbonenses, ali ao pé da estátua de Camilo Castelo Branco, um colega meu que também garatujava. A minha mãe no dia seguinte, a mostrar-me a camisa

– Que cheiro esquisito é este?

porque, habituada ao Chanel nº 5, desconhecia as vantagens afrodisíacas do produto espanhol Madeiras do Oriente, uma espécie de insecticida benigno capaz de levar ao supremo êxtase qualquer extintor de incêndio que se aproximasse. Com mais dois ou três compinchas, tão palermas quanto eu, levávamos um frasquinho de Madeiras do Oriente, aos domingos de manhã, para os degraus da igreja de Benfica, no propósito louvável de o exibir a cristãos idosos que subiam, de bengala, os degraus da Eternidade, propondo-lhes, berrando de ternura

– Se quer rezar por alma da sua tesão experimente comprar isto e deixa de necessitar de novenas

o que indispunha, sei lá porquê, o prior e o sacristão que nos perseguia com o pau comprido, de chapelinho metálico na ponta, destinado a apagar as velas mais altas. Já agora, e de borla, aconselho as Madeiras do Oriente aos senhores com dificuldades de firmeza. Basta abrir a tampa e aspirar de leve porque o coração é um órgão sensível e a morte súbita uma possibilidade frequente. Claro que no intervalo destas ações sociais, de pura generosidade, continuava a escrever e a queimar os meus sub-
-produtos na figueira do quintal, cada vez mais seguro do meu génio que por capricho ou maldade teimava em não se manifestar, limitando-se a pingar restos no papel como um algeroz amolgado, fui substituindo os Bombeiros Voluntários Lisbonenses pelos bailes de sábado à tarde da Sala de Alunos, com conjunto musical e tudo, sendo o tudo estudantes de Letras, deixei de ser tratado por

– Pechinchinho

substituído por perguntas como

– Gostas de mim?

a que ia respondendo

– Isso não são coisas que se digam de ânimo leve

a minha mãe deu-me ideia de começar a aceitar os cheiros embora me parecesse mais preocupada agora

– Eu nem quero pensar

enquanto o João me piscava o olho do interior dos seus tratados, continuei a ler e a escrever sem descanso numa tenacidade maníaca, seguro de que ia conseguir, com uma frase de Cervantes na cabeça

NÃO SE PODE NADA CONTRA O CÉU SOBRETUDO QUANDO ESTÁ A CHOVER

fui para a tropa, casei, mandaram-me para a guerra, a minha filha Maria José nasceu, anunciada desde há meses nas cartas da Zé

O inquilino mexe-se, escrevia ela, o inquilino mexe-se

o inquilino afinal inquilina e eu a chorar de puro amor junto ao arame farpado, vim da guerra, trabalhava como um cão e escrevia como um rafeiro, desses que tombam os caixotes dos sobejos para tirar a barriga de misérias, e principiava a desesperar sinceramente quando uma noite, já sem esperança, a Memória de Elefante me disse

– Olá

e começou a fazer-se sozinha