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A Luta

Lutar contra a violência doméstica é lutar contra esse caldo cultural que ensina as mulheres a pôr a estabilidade do casamento acima da sua autoestima e da sua integridade física

Cavan Images

Nenhuma outra luta pelos direitos humanos foi tão descredibilizada como a causa feminista. Desde os seus primórdios até à atualidade, repetem-se as narrativas e os insultos. Bruxas, histéricas, sapatonas, mal-amadas, peludas... Tudo serve para desqualificar as mulheres que ao longo dos séculos tiveram a coragem de desnaturalizar a sua condição e lutar por direitos iguais.

Enxovalhar feministas não é coisa nova, nem começou com as últimas batalhas, mais centradas na dimensão simbólica da desigualdade, do que nas questões legislativas ou materiais. Mas parece que, ultimamente, se cumpre ainda com mais força a tendência clássica de culpar a luta das mulheres pelo próprio enxovalhanço. O quem-a-mandou-usar-a-minissaia-sozinha-na-rua-àquela-hora, transpõe-se para a escolha da pauta e da denúncia, sempre pequena e anedótica, para os que teimam em ensinar às feministas quais as causas fundamentais que deveriam estar a defender em primeiro lugar.

Quando se defendem livros e brinquedos iguais para crianças de géneros diferentes, levanta-se a fúria e o escárnio. Mandam-nos ir lutar contra a violência doméstica. Quando se fala em cartão de “cidadania” cai o carmo e a trindade e mandam-nos “masé” lutar contra a discrepância salarial. Como se os problemas materiais, estivessem a ser negligenciados ao levantarem-se outros debates. Como se tivéssemos de escolher uma causa de cada vez. Como se ao falar da socialização das nossas crianças, da dimensão simbólica da construção cultural dos papéis de género, da linguagem que se quer mais inclusiva (sobretudo no que tem que ver com as instituições do Estado), não estivéssemos a contribuir para a mudança do quadro de desigualdade entre géneros.

É que se muito caminho já foi feito para eliminar da lei o duplo padrão, a prova de que a mudança das condições formais e materiais não chega, é a velha e boa realidade. Basta ver a discrepância salarial que temos, depois de muita luta para que as mulheres se estabelecessem no mercado de trabalho e entrassem em força nas universidades. Fica claro como água, sobretudo tendo em conta que hoje os lincenciados são na sua maioria mulheres (!) e que a discrepância tende a ser maior quanto mais subimos na hierarquia profissional (!!).

Como dizem os brasileiros, “o buraco é bem mais em baixo” e é claro para as feministas, pelo menos desde Beauvoir, que se a causa para a desigualdade é cultural (e é, por isso, tão importante desnaturalizar a definição dos papéis de género), a batalha tem de ser feita também no plano simbólico, e não apenas na lei, no sindicato, no partido e na escola. A luta passa pela transformação do caldo cultural que legitima a desigualdade e naturaliza a diferenciação de papéis.

Se desde a mais tenra infância diferenciamos as cores, os brinquedos, os livros, e utilizamos adjectivos e critérios diferentes para elogiar e definir crianças de géneros diferentes, estamos a moldar os seus interesses, expectativas, vocações e percepções de si e do outro. Estamos a dizer às meninas para priorizar a vida familiar, a beleza, o amor romântico, as profissões ligadas ao cuidado do outro. E a dizer aos rapazes para serem fortes, competitivos, desportivos e líderes. Estimulamos a sensibilidade de umas e a auto-estima dos outros. A abnegação de umas e a ambição dos outros. Pela vida fora...

É por isso que lutar contra a violência doméstica é lutar contra esse caldo cultural que ensina as mulheres a pôr a estabilidade do casamento acima da sua autoestima e integridade física. Lutar contra a diferença salarial é lutar contra a a naturalização de que as tarefas domésticas são responsabilidade eminentemente feminina, para que haja partilha real e estejamos em pé de igualdade para competir profissionalmente com os nossos pares. É ressignificar os papéis e o que associamos ao arquétipo de feminino e masculino. É cumprir a luta que falta. Cultural, simbólica e definitivamente.