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Roça Maria Luiza

Desde que cheguei aqui, para tocar no 10 de Junho na festa da embaixada, tenho andado a ver se descubro o raio da casa, o sítio dessa fotografia da minha vida toda

D.R.

Aqui em São Tomé tudo é amigável e convidativo, a Natureza é abundante, próspera, prodigiosa, maternal, anda-se aos pontapés em mangas, jacas, carambolas, fruta-pão, bananas, as caras são sorridentes, dá vontade de viver aqui para sempre, apetece morrer aqui. Até a bicharada é do bem e apenas existem duas espécies de cobras, a amarela e a preta. A preta mata, mas só em legítima defesa. Houve em tempos um tal António que sentiu esse apelo de morar aqui, de morrer aqui em São Tomé. Esse António, António Malheiro, tinha sido juiz em Benguela, tinha-se casado por lá com uma indiana de Salcete, Goa, chamada Luísa, e um dia largou tudo e enfiou a família num barco, um mês de viagem, comprou uma roça de 800 hectares em São Tomé, na freguesia de Nossa Senhora das Neves, por 40 contos, e chamou Maria Luiza à roça porque era o nome da filha mais velha. Enfiar a família num barco durante mais dum mês rumo ao fim do mundo é coisa de pessoa aventureira, curiosa, esse António seria portanto o género de pessoa que vê uma cobra sossegada na sua vidinha e vai lá cutucá-la com um pau. Imagino-o aninhado, de bigodinho colonial, num dia em que o sol bate com toda a força, mão no queixo, a arreliar o bicho com a ponta do pau, a ver se ela também seria preta por baixo, sei lá, aquelas coisas de pessoa curiosa. Morreu novo e, se por acaso a cobra fosse das amarelas, a infinidade de eventos que por aí em diante se desfiaram em cadeia teria sido totalmente diferente. Não deve ser nada agradável morrer a morte lenta e agonizante do veneno de uma cobra, mas também não pode ser bom ser acordado da sesta por um pau, e uma cobra preta não perdoa. Esse António, António Malheiro, deu cabo de tudo porque não podia deixar o raio da cobra acabar a sua sesta. Aqui em São Tomé existe essa aldeia, essa localidade, Maria Luiza é nome que as pessoas usam como nós usamos os nomes em Portugal, meras referências geográficas, Bessa Leite, sabemos lá quem era o Bessa Leite, Passos Manuel, sabemos lá quem era o Passos Manuel. Pina Manique. Maria Luiza, aqui nesta ilha, fica perto de Diogo Vaz, também ninguém deve saber propriamente quem era esse Diogo. Mas ninguém se lembra de nenhuma roça com esse nome, não faz parte do catálogo das roças com direito a figurar nas distintas pesquisas do Google. E ninguém faz a mais remota ideia de quem era essa tal Maria Luiza. Mas eu sei, porque em casa dos meus pais sempre existiu uma fotografia muito antiga duma menina montada num cavalo, a tal Maria Luiza, a filha mais nova do meu trisavô António, uma fotografia tirada na Roça de São Tomé. Desde que cheguei aqui, para tocar no 10 de Junho na festa da embaixada, tenho andado a ver se descubro o raio da casa, o sítio dessa fotografia da minha vida toda, o muro branco do pilar pontiagudo. Nunca mais ninguém da minha família cá veio. A picada da cobra preta determinou que a família toda regressasse a Portugal com uma mão atrás e outra à frente, a minha bisavó com um ano de idade, a mãe dela semianalfabeta cheia de dívidas, cheia de dúvidas. Ainda me lembro do dia em que essa bisavó, Alice, nascida em 1901, batizada na freguesia das Neves, São Tomé, morreu, o sol a entrar com toda a força pela janela do quarto da televisão da casa de Águas Santas. Hoje, na casa onde ela nasceu, lembrei-me do nariz, das orelhas grandes, das feições de quem tem mãe goesa. Lembrei-me da minha bisavó Kiki, nessa casa que, depois de me ter metido duas horas pela mata adentro, lá acabei por encontrar, devorada pela Natureza, implacável como a picada duma cobra preta, e ainda deu para ver o muro pontiagudo e imaginar a minha tia-bisavó Maria Luiza a subir para o cavalo, o fotógrafo de cabeça enfiada naqueles carapuços das máquinas antigas a dizer não se mexa menina e o meu trisavô António de bigodinho colonial a revirar uma cobra com um pau comprido só para ver se ela também seria preta por baixo.