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O futebol e o seu avesso

Todos os ligados ao futebol devem fazer um exame de consciência para avaliar situações e condutas que criaram um caldo de cultura que possibilitou chegar--se onde se chegou

Vai começar o Campeonato do Mundo de Futebol. E eu serei só um dos milhões de portugueses que não falharão um jogo da nossa seleção. No Mundial de 2006, a emoção em um dos jogos chegou a levar-me ao hospital… E há momentos que nunca esquecerei. Trago isto à colação não para discorrer sobre o Campeonato, mas para sublinhar que nada tenho contra o futebol. Pelo contrário: como desporto, se for desporto, ótimo; e como espetáculo, se tiver qualidade, ótimo também.

Mais, parece-me claro que bem-sucedidas participações futebolísticas portuguesas são muito boas para a projeção do nome e até para o prestígio do nosso país (recordo que em 2006 a nossa seleção foi a mais apreciada e popular até em países como a China). Ponto é que não se exagere nesta avaliação e nas suas consequências…

Esta importância do futebol só nos obriga a ser mais sérios e exigentes em tudo o que com ele se relaciona. 
A aproveitar a sua popularidade para promover valores, da sadia competição à tolerância, e não para ela servir de pasto ou pretexto para a irracionalidade, o facciosismo, a violência – até para crimes. E é isto que com frequência tem acontecido. Em particular, nestas últimas semanas com o(s) caso(s) do Sporting, culminando com o ataque de ditos “adeptos” do clube aos seus próprios jogadores e ao treinador.

Foi uma espécie de “demonstração pelo absurdo” do pior que atrás referi, ou do pior que nem se poderia imaginar! Com uma óbvia coautoria moral, incluindo no plano criminal, de quem tem responsabilidades primeiras na direção do clube e na criação de um clima em que o 
ocorrido aparece como resultado (quase?) natural.

Todos os que estão ligados ao futebol devem fazer um exame de consciência para avaliar até que ponto terão promovido ou permitido situações e condutas que, não tendo responsabilidades nestes acontecimentos, foram criando um caldo de cultura que possibilitou que se chegasse onde se chegou. Fico-me pelos média: pela excessiva, defeituosa, antipedagógica, “aproveitadora” (para conquistar audiências de forma primária) cobertura das coisas do futebol por parte de muitos deles. Desde logo, não sei de nenhum país civilizado em que: a) haja tanto “paleio”, tantos programas não de futebol mas sobre futebol, mormente com adeptos dos “três grandes”, que em geral se guerreiam, por vezes com agressividade; b) os presidentes e treinadores dos principais clubes sejam figuras nacionais, a aparecer nos telejornais e a fazer manchetes; c) até os chefes de violentas, inadmissíveis, “claques”, mesmo condenados ou suspeitos de crimes, também por lá apareçam; etc., etc.

Jornalistas que se prezem e respeitem devem tomar em consideração estas realidades e “resistir” quando queiram forçá-los a fazer certos serviços que só para elas contribuem. E devem recusar servir de simples “reprodutores de dislates”, de pés de câmara, microfone ou gravador de alguém como Bruno de Carvalho. E muito menos estar longamente à espera, após a hora marcada, para servirem de amplificadores de quem os “convoca” para uma declaração ou uma dessas falsas conferências de imprensa que agora abundam. Nós, jornalistas, temos de defender a nossa dignidade. Temos responsabilidades e devemos assumi-las.

(Artigo publicado na VISÃO 1319, de 14 de junho de 2018)