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Um Congresso... de Costa a Costa

O Congresso do PS foi para António Costa, como previsível, um passeio em carro descapotável numa paisagem amena

1 O Congresso do PS foi para António Costa, como previsível, um passeio em carro descapotável numa paisagem amena. Com todo o crédito resultante do inegável êxito dos acordos, à esquerda, de viabilização governativa, e dos em geral excelentes resultados da ação do próprio Governo, Costa só podia ter um congresso calmo, de unidade e de uma consagração de que já nem necessita. Assim, até os adversários internos da atual “solução” governativa, que não eram poucos, se convenceram, renderam ou silenciaram – enquanto Francisco Assis inventou um modo habilidoso de, sem se contradizer, reduzir os danos ao mínimo.

2 Neste contexto, e sendo o secretário-geral do PS um primeiro-ministro em funções que tudo indica em funções irá continuar, foi natural e positivo a sua moção, aprovada por uma enorme maioria, centrar-se em problemas, desafios e projetos para a próxima década. Nada a opor a isso, nem ao teor das suas intervenções, mormente a de encerramento. Mas pelo menos esta, em que de forma adequada aos seus propósitos traçou alguns objetivos desejáveis, foi muito acomodada e pouco entusiasmante. E parece-me que não deveria ter omitido outras questões prementes, hoje e no futuro próximo. Por exemplo: que fazer em defesa da democracia e do prestígio das suas instituições, da participação dos cidadãos na vida pública, evitando manipulações e “populismos”? – o que passa, na minha ótica, pelo firme combate, preventivo e punitivo, à corrupção e por mudanças no sistema político e na forma de fazer política, em particular nos partidos. Noutro plano, se com inteira justiça (d)as maiores ovações do Congresso foram para António Arnaut, que Costa evocou na intervenção inicial, na final teria sido interessante garantir que as suas últimas propostas para “salvar” o Serviço Nacional de Saúde seriam tomadas na devida consideração.

3 Como do Congresso só sei o que os média deram, ignoro até quem foram os eleitos para os vários órgãos do partido – e se daí se podem tirar quaisquer ilações políticas. Duas coisas das que vi valorizadas, não sei se no próprio partido e no Congresso se só por comentadores com falta de assunto para preencher o muito tempo/espaço que ocupam, se me afigura não fazerem sentido. Primeira, uma alegada competição já entre putativos candidatos a sucessores de Costa, um político excecional e com apenas 56 anos, que nada sequer indicia venha a deixar nos próximos anos a liderança do partido. Segunda, o PS pedir ou não a maioria absoluta nas próximas legislativas, uma futilidade, para não dizer tontarias, porque: ter maioria ou não é a “pedido”?; o que significa pedi-la e que vantagens há para quem a pede?

4 Enfim, o líder do PS não atacou ninguém, o que é de aplaudir. Mas ele e outros dirigentes repetiram as práticas discursivas destes congressos, da hipervalorização dos méritos do partido ao proclamado orgulho por todo o seu passado, esquecendo ou omitindo as partes que não o justificam... Uma última nota para sublinhar a referência à eutanásia e à clareza com que Costa afirmou ser favorável à sua legalização – do mesmo passo sublinhando o que a esse propósito também disse Rui Rio, numa atitude que evidencia assinaláveis seriedade e coragem 
políticas.

(Artigo publicado na VISÃO 1317 de 31 de maio de 2018)