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Tenho para mim que o PS, no futuro, deve manter-se afastado de compromissos com quem foi contra o SNS e que, neste momento, defende uma política ultraliberal da economia e moralista do indivíduo

É comum ouvir comentários muito positivos de amigos de esquerda de outros países relativamente ao desempenho do PS. Convenhamos que os nossos congéneres europeus vivem momentos muito difíceis e é importante entender e explicar por que razão o declínio da social-democracia europeia foi acompanhado pelo fortalecimento do PS português.

Ao contrário de outros partidos socialistas, o PS, com António Costa, recusou-se a enfrentar os desafios para os quais tínhamos pouca preparação histórica com a descaracterização do socialismo democrático, isto é, com as cedências ideológicas que, noutras paragens, derreteram na ambiguidade do “lugar-nenhum” os nossos parceiros europeus, dando espaço 
à direita, a novos atores apegados à retórica “antissistema” ou mesmo à extrema-direita.

Neste sentido, é justo afirmar que António Costa salvou o PS. Teve a inteligência de interpretar o sentimento da população e de acabar com o chamado “arco da governação”, fazendo história ao demonstrar que a esquerda pode unir-se para executar uma política concreta de alternativa à direita mais extrativa de que tínhamos memória.

Como foi recordado no Congresso do PS, o Governo liderado por António Costa, por tantos visto como um Diabo a caminho, obteve excelentes resultados sociais, económicos e orçamentais. Foi possível conjugar rigor orçamental com rejeição da austeridade, o que tem significado, para além da devolução de salários e de pensões, numa aposta – que é ideológica – nas prestações sociais, no pré-escolar, na educação pública, na recuperação do SNS, no aumento do salário mínimo, na luta contra a precariedade laboral, na consolidação de um sistema sólido e público de pensões ou numa política de habitação com visão de futuro.
O PS tem protagonizado, também, o lugar da inclusão e da tolerância. Quem perder menos tempo com a “política de casos” e mais tempo com o que efetivamente se debate no Parlamento, verificará que é fortíssima a diferença entre esquerda e direita em matérias como: lei de nacionalidade; imigração; direitos das mulheres; direitos das pessoas LGBT; autonomia de cada pessoa para decidir o seu próprio destino de acordo com as suas convicções, desde que não prejudique terceiros.

O PS não impõe modelos de comportamento 
ou padrões morais aos quais todas e todos tenham de se submeter.

Tenho para mim que o PS, no futuro, deve manter-se afastado de compromissos com quem foi contra o SNS e que, neste momento, defende uma política ultraliberal da economia e moralista do 
indivíduo.

Isso não significa, naturalmente, que, em casos concretos, não possa haver entendimentos alargados, mas não estamos a falar do PS em abstrato. Estamos a falar do PS de hoje, no contexto europeu e mundial de agora, perante a direita concreta que se apresenta ao eleitorado despida de qualquer resquício de social-democracia ou de democracia-cristã. De resto, ultimamente, infelizmente dada à união de falta de propostas com populismo gratuito.
Temos de fazer mais. Saber quem representamos. Como disse Pedro Nuno Santos, não representamos as elites. Representamos quem trabalha e ganha mal. Quem é precário. Quem trabalha uma vida inteira e recebe uma reforma 
indigna.

E citando um parágrafo da sua moção ao congresso: “A social-democracia não se deve circunscrever à ideia de que ao Estado cabe apenas a responsabilidade de proteger os mais fracos e reduzir as desigualdades, por muito importante que esta função seja. O Estado deve, na sua ação, ser um mecanismo de redistribuição de rendimento e de proteção social, mas também de desenvolvimento e inovação socioeconómica. Estas duas atuações não podem, no contexto de uma nova social-democracia, ser desligadas.”

Estas são condições de liberdade.

Estamos bem. E é por aqui.

(Artigo publicado na VISÃO 1317, de 31 de maio de 2018)